Famosas, aclamadas, deusas para seus admiradores, Isadora Duncan, a criadora do ballet moderno e Eleonora Duse, considerada em sua época a maior atriz de todos os tempos, foram mais do que grandes amigas, mesmo com uma grande diferença de idade (dezenove anos). Suas vidas corriam paralelas e tinham grandes semelhanças. Elas se cruzaram no ponto exato em que a amizade transformou-se em amor, depois de Duncan ter perdido seus filhos de forma trágica, nas semanas de luto passadas em Viareggio, casa de praia de Duse. Eleonora Duse (1858-1924) nasceu em Vigevano, próximo a Veneza e já aos quatro anos, atuava nos palcos interpretando Cosetta na peça ‘Os Miseráveis’, de Victor Hugo. Aos 15, com seu talento reconhecido em toda a Itália, interpretou Julieta na famosa arena de Verona. Sua performance cênica era baseada no gestual reduzido ao mínimo e no poder da voz gentilmente sussurrada. O repertório de Duse ia de Shakeaspeare às heroínas do drama francês, e foi a primeira atriz italiana a interpretar Ibsen, foi a primeira atriz italiana a interpretar Ibsen. Isadora Duncan (1878-1927) nasceu em San Francisco e teve uma infância atípica para a época. Abandonados pelo pai muito cedo ela, a irmã e os dois irmãos freqüentavam aulas de literatura, poesia, música e artes plásticas. A partir dos 4 anos, freqüentou um curso de ballet clássico e aos 11 dava aulas de sua técnica muito pessoal. Isadora achava que as técnicas clássicas e as sapatilhas de ponta deformavam o corpo feminino. Seu estilo de dançar era baseado na improvisação de movimentos, na natureza e nas manifestações culturais da Grécia Antiga. Duncan trabalhou em Chicago no final do século 19, contratada por Augustin Daly, o maior empresário teatral da época. 
Na vida amorosa Eleonora Duse viveu relacionamentos apaixonantes, mas infelizes. Em Nápoles conhece o jornalista Mattino Cafiero que a abandonou grávida de um bebê que teve morte prematura. Em 1881, casou-se com o também ator Theobaldo Checchi, com quem teve uma filha. Em 1885, encontrou e se tornou amante, financiadora, promotora e intérprete das peças de Gabrielle D’Annunzio, poeta e dramaturgo, durante o tormentoso tempo em que estiveram juntos. Para viver o idílio com mais tranqüilidade, Eleonora alugou uma magnífica villa em Florença, seu primeiro lar verdadeiro.
Em 1900, o escândalo causado pelas indiscretas e inescrupulosas revelações sobre os amores do casal e provocou o fim do relacionamento. Mais tarde, D’Annunzio, voluntário na 1ª Guerra Mundial se tornou herói nacional e apoiou o regime de extrema direita de Benito Mussolini. No período em que parou de atuar (1909-1921), Duse se envolveu com Lina Poletti que, por sua vez, tinha rompido um relacionamento com a escritora Sibila Aleramo. Também se relacionou com a atriz Emma Grammatica, com a cantora Yvette Guilbert e com a dançarina Isadora Duncan.
Tuberculosa, conviveu com os problemas da doença, como a ‘Dama das Camélias’, um de seus grandes papéis. Eleonora Duse morreu em Pittsburgh, Pensilvânia em 21 de abril 1924, durante uma triunfante turnê. A companheira, na época, era a poeta americana Amy Lowell, que ela havia acabado de conhecer. 
Excursionando com a companhia, chegou a Londres onde dançava em reuniões organizadas por damas da alta sociedade que a levaram para Paris onde, finalmente, encontrou a aceitação que tanto buscava para seu talento. A chegada de Isadora à França foi pontuada por apresentações em locais públicos e em sessões especiais para seus ricos e ilustres admiradores, entre eles o escultor Auguste Rodin. Seu espírito livre não acreditava em casamentos formais. Mas, ao encontrar o produtor teatral Gordon Graig, viveu durante algum tempo uma relação tumultuada, de onde nasceu a menina Deidre. Com Paris Singer, um dos herdeiros do império das máquinas de costura, teve Patrick.
Em 1913, uma tragédia alterou profundamente sua forma de ver a vida. Deidre e Patrick morreram afogados num acidente automobilístico no Rio Sena, juntamente com a sua babá irlandesa. Um ano depois deu à luz um terceiro bebê do sexo masculino, que ela julgava ser a reencarnação de Patrick, e que morreu horas após o parto. Após perder sucessivamente os três filhos, quase oito anos de afastamento completo se passaram. Isadora reapareceu para o público em 1922, casada com o poeta gay russo Serguei Yesenin, 17 anos mais novo. Mudou-se para a Rússia por convite do Comissariado da Educação que lhe destinou uma casa de dois andares, onde cerca de mil crianças estavam matriculadas. Em 1921, fundou a Escola Soviética de Dança, em Moscou. Desde o início da carreira, Isadora sonhava investir seus ganhos na educação de jovens, aperfeiçoando novos talentos.
Abalada com a sucessão de perdas afetivas que sempre se seguiam aos ganhos materiais e artísticos, Duncan começou a beber descontroladamente e a ter vida sexual bastante movimentada. Casos com Mercedes Acosta e Eleonora Duse, entre outras, colaboraram para a reputação de Isadora tornar-se ainda mais extravagante, imprevisível e escandalosa para os parâmetros da época.
Aclamada como o espírito vivo da dança, discriminada pela postura transgressora, feminista, revolucionária, inspiradora de poetas e artistas é até hoje um ícone de sua época. Os últimos anos de Isadora Duncan foram vividos em Nice, na Riviera Francesa. Em 27 de maio de 1927, quando atravessava mais uma fase de decadência, morreu da mesma forma espetacular como viveu, estrangulada pelo écharpe que se prendeu às rodas do carro esporte sem capota em que viajava. Desde a morte de Deidre e Patrick se recusava a entrar em carros fechados. (por: thereza pires)
sexta-feira, 3 de abril de 2009
ela e ela: eleonora duse e isadora duncan
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008
ela e ela: natalie barney e romaine brooks
Natalie Clifford Barney no século XX, com 20 anos deixou a América e instalou-se em Paris. A cidade de Washington era provinciana demais para abrigar a jovem herdeira que pregava o amor livre, Paris, a cidade-luz, parecia ser o paraíso. Natalie talvez tenha sido a primeira mulher a alardear publicamente sua homossexualidade e o fazia com muito orgulho. Ela e a amante a poeta Renée Vivien aproveitaram a onda migratória de artistas americanos para a Europa e estabeleceram moradia em Paris onde sonhavam recriar uma ‘Lesbos’ em pleno começo do século XX. Romaine Brooks foi amante de mulheres, adorava vestir-se com roupas masculinas, percorria as ruas de Paris e Londres com sua Bugatti conversível e adorava pintar retratos de suas amigas travestidas. Só pintava em tons de cinza, Brooks odiava cores fortes. Até mesmo seu apartamento era decorado apenas com as cores branco, preto e cinza e suas roupas e pinturas obedeciam à mesma palheta, acrescida de marrom e areia. Esta preferência de Brooks por cores soturnas e neutras talvez se devesse à sua infância extremamente infeliz. algumas obras de romaine brooks
Embora fosse escritora, Natalie era mais conhecida por suas atitudes nada convencionais e pelas festas que dava toda a sexta-feira à tarde, no jardim de sua casa, cujos salões eram frequentados pela nata literária da época. As festas eram exclusivamente para mulheres, onde eram celebrados no ‘Templo da Amizade’, em estilo grego, pequenos rituais sáficos. Sarah Bernhardt e Isadora Duncan apareciam por lá para uma encenação, Greta Garbo deu as caras uma vez, levada por sua amante Mercedes de Acosta e a escritora francesa Collete adorava ir às festas sem seu marido. Certa vez, Collete escreveu: ‘Natalie querida, meu marido beija suas mãos e eu, o resto!’.
Natalie era muito sedutora e aos 50 anos exercia um enorme fascínio sobre as outras mulheres. Mesmo a sisuda Gertrude Stein deixou-se cativar pela sua rival anfitriã, se por um lado as festas de Gertrude eram modernistas, os de Natalie eram um festival ‘Belle Épóque’. Como franca adepta do amor livre, Natalie colecionou amantes durante toda a sua vida, todas mulheres: Renée Vivién, Djuna Barnes, Dolly Wilde (sobrinha de Oscar Wilde) e Collete. Mas foi com a pintora Romaine Brooks que teve o caso mais duradouro. Ficaram juntas por 50 anos. Natalie escreveu alguns poucos livros, a maioria em francês. Uma vez escreveu o que deveria ser seu epitáfio: ‘Ela era amiga dos homens e amante das mulheres, o que para pessoas cheias de ardor e energia, é melhor que o contrário’.
Apesar de ter nascido no seio de uma família americana abastada, a pintora foi vítima de toda a sorte de abusos. O pai alcoólatra abandonou mulher, um filho deficiente mental e duas filhas pequenas, uma delas a recém-nascida Romaine. Ella Godard, sua mãe, era louca. Com o tempo, foi nutrindo uma obsessão doentia pelo filho deficiente, passou a achar que o menino era santo e batizou-o de Henry St Mar e caçoava de Romaine por ela não ser tão inteligente quanto o irmão. Depois, passou a vestir as filhas com roupas que o menino havia usado quando tinha a idade delas, querendo torná-las como ele.
O garoto St Mar, no entanto, amava Romaine, era correspondido e a cumplicidade dos dois despertou o ciúme de Ella, que passou a odiar a filha. Cruel, Ella deixou Romaine passar uns dias na casa da lavadeira, num cortiço nos arredores de Nova York, mas só voltou para pegá-la anos depois. Em casa, Romaine sofria humilhações e tinhas seus desenhos rasgados pela mãe, egoísta e invejosa de seu talento artístico. Adolescente, Brooks foi enviada para um convento na Itália, de onde fugiu logo que completou 18 anos para viver, incógnita, nas ruas de Paris, onde, um pouco antes da virada do século 20, ela finalmente decidiu se dedicar profissionalmente à pintura.
Sem dinheiro, pois havia interrompido a comunicação com a família, passou a fazer uns bicos posando como modelo para aulas de desenho. Assim, ficou íntima de um núcleo de artistas e acabou desenvolvendo a pintura como sua verdadeira vocação. Logo depois, com a morte da mãe, Romaine herdou uma fortuna que lhe permitiu viver apenas para sua arte. Em 1915, Brooks, conheceu o grande amor da sua vida, a escritora Natalie Barney, a lésbica mais famosa da cidade, conhecida como a Safo de Paris. As duas, no entanto, eram muito diferentes, Natalie adorava festas, roupas claras, relacionamentos abertos, era otimista e amava estar cercada por muita gente; Romaine preferia o silêncio, roupas escuras, relacionamentos exclusivos, era pessimista e sofria de misantropia crônica. Mas, talvez por terem se encontrado numa fase madura da vida, as duas com quarenta e poucos quando se apaixonaram, souberam administrar essas diferenças e permaneceram juntas por quase 50 anos.
Uma das táticas usadas por Brooks para conservar em bons termos sua relação com Natalie envolvia respeito mútuo e distância. Sabendo que a amante era uma namoradeira incorrigível, e consciente de sua própria preferência pela solidão, Brooks se afastava de tempos em tempos e deixava Natalie livre para suas outras conquistas amorosas. Quando as paixões de Natalie arrefeciam, Books voltava para tomar seu lugar de direito e Natalie ajudava Brooks a se promover, organizando exposições, negociando os quadros de Romaine com museus e intermediando pedidos de socialites que desejavam ter um retrato pintado por sua namorada. Lésbica e cross-dresser, Brooks pintou vários retratos de mulheres vestidas como homens, o que na época foi bastante ousado. Em seus retratos monocromáticos, Romaine Brooks confundiu propositalmente os limites entre os gêneros masculinos e femininos, redenção de sua infância atormentada. (fonte: MixBrasil)
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quarta-feira, 9 de julho de 2008
ela e ela: bettine von arnim e caroline gunderode
Elisabeth Magdalena Catharina Ludovica Brentano, conhecida como Bettine von Arnim, foi uma escritora alemã, importante representante do romantismo. Em 1805, esta jovem escritora alemã correspondia-se com Caroline Gunderode, nascida como Maximiliane de Friederike Caroline Louise Günderrode, poetisa, e uma das mais enigmáticas figuras do romantismo alemão. Bettine escrevia a Caroline, uma mulher com mais 8 ou 10 anos do que ela: ‘Se não existisses, o que seria o mundo para mim? Sou como morta se não me pedires que me levante e viva continuamente contigo. Tenho a certeza que a minha vida acorda apenas quando me chamas e que a minha vida morrerá se não puder continuar a crescer em ti. Sim, sei, a minha vida é insegura; sem o teu amor, no qual está plantada, a minha vida nunca florirá.’ (do livro ‘Lesbians in Germany’
Caroline correspondia à sua paixão e necessidade, declarando: 'Tu és o meu raio de sol que me aquece, enquanto que em todo o outro lado a geada cai sobre mim.'
A correspondência volumosa entre estas duas mulheres sugere um caso amoroso de grande paixão, no qual elas ofereceram uma à outra não apenas um afeto intenso, mas também apoio emocional e estímulo intelectual. Como muitas outras mulheres do seu tempo, noutros países, Bettine e Caroline viam-se a si próprias como "amigas românticas".
Apesar da grandeza do seu amor, Bettine e Caroline não viveram juntas. Poucas eram as mulheres que o faziam nos princípios do século XIX, quando não havia praticamente oportunidade de auto-suficiência econômica para as mulheres de classe média e alta. Esperava-se destas que casassem ou que entrassem para um convento ou outro retiro feminino semelhante. Caroline Gunderode, filha de uma viúva com vários outros filhos, escolheu este último caminho, tornando-se cônega da sua ordem religiosa.
As duas mulheres poderiam, é claro, ter fugido juntas como tinham feito na geração anterior na Inglaterra duas lésbicas, Sarah Ponsonby e Eleanor Butler, as ‘Senhoras de Llangollen’, mas talvez não tenham podido, ou não tenham querido arriscar a fúria de amigos e família que as ‘Senhoras de Llangollen’ tiveram de suportar. Se Bettine e Caroline fossem das classes mais baixas, uma delas poderia ter envergado roupas de homem, e obtido trabalho manual sob esse disfarce, e as duas poderiam ter passado por marido e mulher.
Mas mudar de classe, no início do século 19, era ainda mais difícil do que mudar de gênero. Além disso, Bettine e Caroline poderiam ter tido conhecimento do caso de uma outra alemã, Catarina Margarethe Linck, queimada na fogueira em 1721 por ter tentado passar por homem e por ter casado com outra mulher. Mas apesar de não terem passado a vida juntas, a sua correspondência indica que, como muitas outras "amigas românticas" da época, foram amantes em todos os sentidos exceto talvez o carnal, é muito pouco provável que tivessem posto essa experiência por escrito, mesmo que a tivessem tido.
Para nós, já no século XXI, poderá parecer incrível que duas mulheres possam ter estado tão apaixonadas sem nunca terem referido a este amor enquanto lésbicas, ou o seu receio de serem descobertas, ou o significado político do seu envolvimento uma com a outra. Contudo, tal falta de percepção era possível antes do advento dos sexólogos em finais do século XIX, quando informaram o mundo da existência de enormes quantidades de mulheres que amavam outras mulheres, de maneiras que ultrapassavam o afeto entre irmãs e que semelhante amor era mórbido.
de Lillian Faderman e Brigitte Eriksson)
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sexta-feira, 6 de junho de 2008
ela e ela: susan sontag e annie leibovitz
Susan Sontag e Annie Leibovitz devotaram suas vidas à paixão pelos livros, paixão pela beleza, além da paixão de uma pela outra. Mantiveram uma relação intensa, uma voz para um olhar. As duas falaram em nome das mulheres. Discretamente, sem alarde. Annie Leibovitz, uma das expoentes da cultura pop americana na segunda metade do século passado, uma fotógrafa perfeccionista, cada fotografia é preparada detalhadamente por uma equipa de cerca de 50 pessoas. Uma hora do seu trabalho custa milhares de dólares. É dela, por exemplo, a célebre fotografia do beatle John Lennon, nu, enroscado em Yoko Ono, momentos antes de ser assassinado por Mark Chapman em 8 de dezembro de 1980. A fotografia que foi capa da ‘Rolling Stone’ e ficou na história como uma das imagens mais marcantes de sempre. A fotografia até nem correu como planejado. Yoko Ono recusou-se a tirar a roupa como Annie Leibovitz lhe tinha pedido. A fotógrafa ficou um pouco desiludida, mesmo assim continuou a sessão. John Lennon aceitou a indicação e despiu-se. Yoko ficou vestida e o ex-Beatle deitou-se a seu lado nu, em posição fetal. Escritora, ensaísta e ativista norte-americana e, como ela mesma dizia, 'fanática pela seriedade’, cuja mente voraz e prosa provocante a tornaram uma das mais importantes intelectuais dos últimos 50 anos. De destaque internacional e enorme irreverência, Susan Sontag foi distinguida com numerosos prêmios literários. É autora do ensaio sobre estética homossexual "Notes on Camp" (1964), que lançou definitivamente a sua carreira literária. Filha de um negociante de peles, ela nasceu como Susan Rosenblatt, em 1933, em Nova York, a sua cidade de sempre. A mãe era alcoólatra; o pai morreu quando ela tinha cinco anos. Mais tarde, sua mãe se casou com um oficial do exército, o capitão Nathan Sontag. Susan Sontag lembrava sua infância como "uma grande sentença de prisão". Mas nem só de literatura viveu Sontag. Os seus múltiplos interesses (jornalismo, filosofia, cinema, fotografia) valeram-lhe o destaque como uma das vozes mais incômodas entre os intelectuais do seu país, tendo muitas vezes proferido afirmações polêmicas. Em 1968, é enviada como correspondente para o Vietnã, um conflito que a marcará profundamente e que reforçará a suas convicções pacifistas. Vinte e cinco anos depois volta a outro cenário de guerra, desta vez na Bósnia Herzegovina para alertar o mundo da escalada de horror vivida na Iugoslávia.

O ensaio de Demi Moore grávida publicado na revista ‘Vanity Fair’ também é de sua autoria. Essas imagens, a de Lennon e de Demi Moore, foram eleitas pela ‘Sociedade Americana de Editores de Revista’ como as duas melhores imagens de revista nos últimos 40 anos. Esses e outros momentos, de uma espantosa e chocante beleza, captados com um olhar ímpar estão impressos no recém-lançado livro ‘A Photographer’s Life’ (1990 – 2005). Um conjunto de obras de quem conta toda uma vida num clique. Mais do que revelar a intimidade de grandes personalidades, a edição mostra a vida pessoal de Annie Leibovitz traduzida em fotos de sua família, de sua companheira, a escritora Susan Sontag, e dela mesma. O livro, aliás, é uma homenagem da autora à Susan Sontag que morreu de câncer em 2004. Annie fotografou toda a agonia de Sontag em seus momentos finais consumida pelo câncer.
Feminista convicta, Sontag foi uma incansável ativista dos direitos humanos. Apesar de já travar a luta contra a doença, não deixou de apresentar o seu protesto a propósito do atentado ao World Trade Center, responsabilizando a atuação das administrações americanas pelo sucedido. Em 2003 insurgiu-se contra a guerra no Iraque, em rota de colisão com o Presidente George W. Bush.
Apesar de ter revelado sua bissexualidade em 1995, Sontag não alardeava (embora não negasse) suas ligações com mulheres. E ela namorou algumas das figuras mais fascinantes da vida cultural americana: por sete anos foi parceira da dramaturga Maria Irene Fornes e namorou a coreógrafa Lucinda Childs. Nos últimos anos de sua vida, viveu intensamente com Annie Leibovitz, com quem dividia um conjugado de luxo em Nova York. Susan, deixou seu recado pouco antes de morrer sobre a força da fotografia em ‘Diante da dor dos outros’. Neste livro Sontag fala do impacto que as imagens da 1ª Guerra Mundial trouxeram para os leitores de jornal no começo do século XX que não conseguiam imaginar o que era o horror nos campos de batalha. A morte ao vivo pela primeira vez era fotografada quase simultaneamente às informações que chegavam ao público.
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domingo, 6 de abril de 2008
ela e ela: rosa bonheur e nathalie micas
nathalie e rosa, 40 anos juntas Marie-Rosalie Bonheur (na foto a que está em pé) nasceu na França no ano de 1822. Logo que começou a demonstrar talento para a pintura, seu pai, também pintor, resolveu ensiná-la a arte do traço, das luzes e das cores, já que não era permitido às mulheres freqüentarem uma escola de arte, mais tarde Rosa se vingou e fundou a ‘Academia de Artes para Jovens Garotas’. Foi o pai também que sugeriu que a filha pintasse sobre um único tema e que seria o principal em sua obra: o reino animal. (veja aqui algumas de suas obras) Depois que Nathalie morreu, em 1889, Rosa entrou numa depressão terrível. Um dia, porém, recebeu a visita de uma jovem artista que queria pintar um retrato seu. Rosa apaixonou-se pela jovem pintora americana, chamada Anna Elizabeth Klumpke, e convidou-a para morar junto dela em Fontainebleu. Uma curiosidade: Anna era fascinada por Rosa desde pequena quando ganhou de presente uma boneca Rosa Bonheur, a pintora era tão famosa que fabricaram uma série de bonecas em sua homenagem. As duas artistas viveram juntas por 10 anos, até a morte de Rosa em 1899. E para provar que o amor é lindo e eterno, as cinzas de Rosa, Nathalie e Anna foram enterradas juntas e podem ser visitadas no cemitério ‘Pére Lachaise’, em Paris. (fonte: MixBrasil)
Querendo aprimorar a sua técnica, Rosa começou a estudar a anatomia dos animais visitando açougues onde podia observar os bichos por dentro. Embora sua pintura fosse realista e bastante conservadora, Rosa era completamente anti-convencional. Para que pudesse visitar os açougues e matadouros sem que fosse incomodada, começou a vestir-se de homem e obteve, com exclusividade, um certificado (veja aqui) da polícia de Paris autorizando-a a se travestir, o certificado era necessário pois fazer cross-dressing era crime naquela época. Além das roupas masculinas, Rosa apreciava charutos, fumava cigarros em público, usava o cabelo bem curto e ainda ousava cavalgar de atravessado, coisa que nenhuma mulher de boa família se atrevia a fazer.
A grande companheira na vida de Rosa foi Nathalie Micas, amiga de infância que depois virou sua esposa. Rosa conheceu Nathalie em 1836, quando tinha 14 anos de idade e só se separaram quando Nathalie morreu, em 1889. Nathalie era uma inventora de fundo de quintal e chegou a patentear um freio para locomotivas. Mas no dia-a-dia Nathalie acabava trabalhando junto de Rosa, ajudando a pintora em sua carreira e também na manutenção do curral particular da casa de campo delas, em Fontainebleu, isso porque Rosa não podia mais manter seus modelos, as ovelhas, os cavalos e outros animais, trancafiados no sexto andar de seu apartamento em Paris.
Na verdade Nathalie era a mulher por trás da grande artista. Rosa escreveu que Nathalie era sua bem-amada: "ela era minha igual em muitas coisas e até superior a mim em outras". Rosa reconhecia a importância de Nathalie para o sucesso de sua carreira de artista: "Ela me protegia da lama que era atirada em mim, impedindo que eu me sujasse". E graças à Nathalie, Rosa tornou-se uma das mais famosas pintoras francesas de todos os tempos.
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terça-feira, 4 de março de 2008
ela e ela: benedetta e bartolomea
Benedetta Carlini nasceu em Vellano, Itália, no ano de 1590, a mãe quase morreu durante o parto e o pai, desesperado, prometeu que se tudo desse certo ofereceria a criança ao Senhor. E assim foi que Benedetta foi prometida para Cristo. Aos 9 anos mudou-se para um convento em Pescia, onde foi fazendo carreira de freira mística e líder do monastério. Tinha visões, premonições, aparecia com chagas e estigmas no corpo e assim foi adquirindo uma aura mística que seduziu suas irmãs, o que explicaria o fato dela ter sido eleita abadessa com tão pouca idade. livro: "Atos Impuros" É impressionante o abismo de silêncio que caiu sobre o processo clerical da Abadessa Benedetta, conforme nos relata Judith Brown (1987), em seu livro 'Atos Impuros'. Um longo processo envolveu essa mulher e nada se falou sobre seu envolvimento com Bartolomea, que somente pôde ser lido através das palavras que não puderam ficar registradas. A descoberta pela autora, na década de 1980, deste fascinante e rico documento histórico foi um evento de grande importância.
Seus transes e gritos foram ficando mais intensos e seus superiores resolveram designar uma acompanhante para ficar ao seu lado, na cela: a irmã Barlolomea Crivelli. A fama de milagreira de Benedetta já se espalhava para fora dos portões do convento e o Papa Paulo V teve que pedir uma investigação mais apurada sobre os feitos místicos da abadessa da Congregação Mãe de Deus.
Na primeira investigação, depois de vários testemunhos e de coletar várias evidências, os investigadores do Papa resolveram que as chagas e as visões de Benedetta eram legítimas e Benedetta ficou mais poderosa ainda dentro do convento. Algum tempo depois, não se sabe por que, algumas freiras começaram a fazer oposição a Benedetta e suas visões, suas chagas e, principalmente, à administração do convento. Tanta era a insatisfação lá dentro que chegou aos ouvidos do Papa, que ordenou uma segunda investigação.
Foi aí que souberam, através da acompanhante Bartolomea, o que acontecia de verdade dentro da cela delas. Segundo o relato oficial da Igreja: 'Esta irmã Benedetta, então, durante dois anos seguidos, pelo menos três vezes por semana, de noite, depois de tirar a roupa e ir para a cama, esperava que sua acompanhante tirasse a roupa e, fingindo precisar de sua ajuda, chamava-a. Quando Bartolomea se aproximava, Benedetta agarrava-a pelo braço e atirava-a à força na cama. Abraçando-a, ela a colocava embaixo de si e, beijando-a como se fosse um homem, falava-lhe palavras de amor. E ela ficava se mexendo em cima dela até que ambas se corrompiam. E assim ela a segurava por uma, duas e às vezes três horas'.
Quando os inquisidores pediram que Bartolomea desse mais detalhes ela disse que Benedetta 'agarrava sua mão à força e, colocando-a embaixo dela, fazia-a colocar o dedo em seus genitais e mantendo-o lá ela ficava mexendo até se corromper a si mesma (...) e também à força ela punha sua própria mão embaixo da sua acompanhante e o dedo em seus genitais e a corrompia'.
Bartolomea escapou da punição dizendo que Benedetta se fazia de Cristo para atraí-la e enganá-la e pedia-lhe que se deitasse com ele, afinal ela era uma noiva de Cristo. Benedetta, que permaneceu em silêncio e alegou que por estar em transe não se lembrava de nada, foi condenada à prisão, onde permaneceu 35 anos até morrer de febre e cólicas. (por Cilmara Bedaque e Vange Leonel)
sub-título: a vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença
autora: judith c. brown
editora: brasiliense
Não só é a história revelada da subida e descida de uma poderosa mulher em uma igreja, mas é nas entrelinhas que a lesbiandade também foi documentada. 'Atos Impuros' é uma pequena jóia de investigação. Um livro que relata tudo o que ja sabíamos sobre a história da mulher, religião e sexualidade, em uma emocionante narrativa.
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
ela e ela: djuna barnes e thelma wood
Djuna Barnes (foto da esquerda) é uma das mais renomadas e, ao mesmo tempo, desconhecida autora da literatura modernista americana do século XX, como ela mesma costumava dizer ‘a mais famosa desconhecida do século’. (fonte: Revista Época, por Graziela Salomão)
Djuna nasceu em 1892 nos arredores de Nova York e escreveu clássicos de temática lésbica, como 'Almanaque das Senhoras' e 'O Bosque da Noite' e sua escrita tem uma característica marcada pelo humor negro e ironia.
Sua família não era nada convencional. A avó, Zadel, era jornalista e feminista. O pai, Wald, era adepto da liberdade sexual e mantinha duas famílias, a da esposa e a da amante, sob o mesmo teto. Nem Djuna nem seus irmãos freqüentaram a escola pois Wald era contra o sistema educacional e achava que a educação familiar seria mais importante e enriquecedora.
A excentricidade da família de Djuna marcou a tal ponto sua história que foi passada para um de seus livros, 'Ryder'. Quando Djuna fez 16 anos, Wald resolveu que ela já estava pronta para conhecer o sexo e submeteu-a a uma relação forçada com um vizinho. Djuna nunca mais perdoou o pai por aquela agressão nem os irmãos, pelas constantes tentativas de abusarem sexualmente dela.
Quando Wald abandonou a família, Djuna foi para Nova Iorque trabalhar como jornalista para sustentar a mãe e os irmãos. Seus comentários sarcásticos tornaram-na, rapidamente, uma das mulheres mais bem pagas da época. Foi colunista especial de teatro em vários jornais e revistas.
Djuna uma vez "entrevistou" uma gorila num zoológico, algo originalíssimo na época e, em outra matéria, experimentou o drama das sufragistas inglesas que, em greve de fome, foram alimentadas à força: ela mesma se submeteu ao tratamento.
Depois da primeira guerra, Djuna, assim como vários americanos da sua geração, foi tentar a vida em Paris. Chegou à cidade como correspondente cultural, mas já era reconhecida por seu talento literário.
Na capital francesa, conheceu Natalie Barney, uma rica herdeira americana que se tornou anfitriã de um dos salões culturais de maior sucesso e que servia como ponto de encontro de artistas de todos os tipos, mas principalmente de lésbicas e homossexuais. Natalie, homossexual assumida que teve um rápido romance com Djuna, patrocinava os jovens talentos e foi uma das pioneiras a defender o 'orgulho gay'.
Bissexual, Djuna já havia tido casos antes, com homens e mulheres, mas foi em Paris que Djuna viveu o grande amor da sua vida, com a escultora Thelma Wood que dizia ter sangue de índio sioux nas veias e com isso queria explicar sua natureza selvagem.
Thelma também foi tentar a sorte em Paris depois da Primeira Guerra. Fugindo da Lei Seca e do provincianismo americano, dedicou-se à escultura até conhecer Djuna Barnes, que a convenceu a tentar desenhos a bico-de-pena. Elas haviam se encontrado em Berlim, se apaixonaram e, de volta a Paris, foram viver num pequeno apartamento na Rive Gauche. Mas a natureza primitiva e irrequieta de Thelma não combinava com uma vida caseira.
Para piorar, Thelma era alcoólatra, nunca conseguiu levar sua carreira a sério e era mais conhecida na cidade por seu sex-appeal e sua beleza selvagem do que pelo seu trabalho. Bebia demais e saía à noite pelos bares e nightclubs enquanto Djuna esperava em casa. Quando, Djuna, angustiada e impaciente, procurava Thelma pelas ruas, encontrava a namorada jogada pelas sarjetas.
Depois de quase dez anos de idílio amoroso, a relação começou a se deteriorar graças ao ciúme de Djuna, à infidelidade e ao hobby noturno de Thelma. Com o rompimento definitivo, depois da última traição de Thelma, Djuna escreveu sua obra-prima 'Nightwood' (No Bosque da Noite). Quando o livro foi publicado Thelma odiou e Djuna, sentiu-se vingada.
Depois de Thelma e Paris, o mundo parecia ter acabado para Djuna. Beirando os 50 anos, Djuna foi encontrada pela amiga Peggy Guggenheim em uma clínica de desintoxicação na Inglaterra. Peggy decidiu mandar a amiga de volta a Nova Iorque e, sozinha, Djuna resolveu escrever seu último livro 'The Antiphon', um retrato pervertido da família. Essa foi a forma encontrada pela escritora de se vingar da mãe, do pai e dos irmãos.
Por quarenta anos, Djuna permaneceu isolada em seu apartamento, sem receber visitas. Morreu aos noventa anos, em 1982. Depois de sua morte a sua obra, não muito numerosa e considerada obscena, por insistir em temas como lesbiandade, bestialismo e incesto, foi quase toda reeditada.
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
ela e ela: gertrude stein e alice b. toklas
viveram 38 anos juntas e formaram um dos mais distintos casais do mundo das artes no início do século XX. Fervidíssimas, as americanas viveram durante muitos anos em Paris, em um momento de muita luz naquela cidade. 

De Gertrude Stein (esquerda) é comum dizer-se que "descobriu" Picasso e que inventou a expressão "geração perdida", aplicada a Hemingway e Fitzgerald. No seu apartamento, em Paris, acotovelavam-se personagens do mundo artístico e da sociedade da época. Gertrude Stein nasceu em 1874 em Allegheny, Pennsylvania, Estados Unidos e passou a maior parte da infância entre Viena e a Califórnia. Tinha oito anos quando começou a escrever, uma atividade que rapidamente se transformou em obsessão, tal como a leitura. As suas preferências iam para Shakespeare e para livros de História Natural. Na escola mostrou imediatamente o fascínio que sentia pela estrutura das frases.
Em 1903, instalou-se na França com o irmão, Leo, depois de ter passado por um curso de medicina na Universidade Johns Hopkins e de ter experimentado o estudo da psicologia. Gertrude e Leo, munidos de uma generosa mesada facultada pelo irmão mais velho depois da morte do pai, tornaram-se rapidamente o centro da atividade cultural, em Paris. Leo era pintor e crítico de arte. Em Paris desenvolveram uma relação estreita com Picasso e, simultaneamente, com o seu grande rival Matisse. Braque, Van Dongen, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Max Jacob, André Salmon, Erik Satie, Jean Cocteau, Sherwood Anderson, Ernest Hemingway, Scot Fitzgerald também faziam parte do círculo de amigos íntimos.
Fisicamente, Gertrude era a típica matrona germano-americana, de corpo e traços fortes, uma figura que nada tinha de feminino. Mas o seu humor, o seu sentido de auto-estima e o seu espírito finamente irônico, aliados ao fato de ser extremamente mundana e muito "snob", faziam dela uma personagem muito atraente que dava ótimas festas e entretinha os seus amigos e convidados com ditos espirituosos e inteligentes. Foi uma escritora que inovou em literatura e uma importante mentora da arte moderna. Diz-se que ela fez com as palavras o que Picasso fez com as tintas.
Gertrude Stein tem sido utilizada como ícone de grupos homossexuais. Um dos seu primeiros livros "Q.E.D." (Quod Erat Demonstrandum) ou "Things As They Are", que ela escondeu e fingiu ter esquecido durante anos, contava a história de um triângulo amoroso formado por três mulheres, uma das quais era uma imagem decalcada de si própria, no tempo em que estudava medicina. O fato de mais tarde, em Paris, fazer questão de demonstrar abertamente que desafiava as convenções, contribuiu para uma admiração por parte das comunidades homossexuais. A sua qualidade de judia tão pouco a marcou com sinais de exclusão.
Em 1908 declarou seu amor a Alice, uma amiga dos seus tempos de S. Francisco, durante uma caminhada pelas montanhas: queria se casar e ela seria o marido e Alice, a esposa. Depois, Gertrude descreveu seu amor por Alice: "Admiro meu neném. Admiro sua beleza admiro sua perfeição admiro sua pureza, admiro sua ternura. Admiro seu charme admiro sua vaidade... Admiro sua dedicação admiro seu humor admiro sua inteligência admiro sua rapidez admiro seu brilho admiro sua doçura admiro sua delicadeza, admiro sua generosidade, admiro sua vaca". Só para constar, vaca era a palavra de Stein para orgasmo.
Foi uma união muito feliz que durou todo o resto da vida da escritora e que foi amplamente documentada em "Autobiografia de Alice B. Toklas", escrita pela própria Gertrude Stein, aos cinquenta e oito anos, em que descreve os detalhes mais íntimos da vida de todos os dias, com as festas, os jantares, as exposições, os amores, ódios, zangas e reconciliações de amigos, inimigos ou simples conhecidos. Quando começaram a viver juntas, o momento foi especialmente dramático para Gertrude, porque se tinha separado definitivamente de Leo, com quem se mantinha em estado de guerra declarada por ele não apreciar os seus escritos. Zangaram-se e nunca mais se falaram.
Durante a Primeira Grande Guerra, tanto ela como Alice fizeram questão de ficar em Paris. Compraram um Ford em muito mau estado, a que chamaram "Auntie" e usaram-no para ajudar a Cruz Vermelha e transportar feridos para a província. Durante a Segunda Grande Guerra trabalharam para a Resistência, conseguindo que os ocupantes nazis nunca descobrissem que eram judias. A forte personalidade de Gertrude marcou indestrutivelmente todos os que com ela privaram. Adorava a escrita, acima de tudo e seguiam-se depois, na ordem dos seus afetos: Alice e os seus dois cães, Pépé e Basket.
Alice B. Toklas. Não, Alice não era escritora. Tanto que quem escreveu sua autobiografia, sim, isso mesmo, sua própria biografia, foi a sempre inusitada companheira, Gertrude. Como não podia mais escrever sua autobiografia, Alice - secretária, governanta e amante da escritora durante 38 anos, inventou um jeito - no mínimo mais saboroso - de contar sua vida na França, um livro de culinária: “O Livro de Cozinha de Alice B. Toklas”. Com uma diferença: suas receitas recolhidas das fontes mais disparatadas, inclusive de amigos ilustres, foram testadas e aprovadas com água na boca por Picasso e outras celebridades do mundo intelectual que freqüentavam a casa das duas americanas mais badaladas de Paris nas primeiras décadas do século XX.
Alice B. Toklas fez mais que um livro de cozinha, fez um livro sobre a cultura gastronômica e os prazeres da boa mesa, salpicado de deliciosas reminiscências da França durante a guerra e a ocupação nazista. Mas esse livro aparentemente sobre culinária se revela um belo álbum de memórias, onde entre ervas de cheiro e ingredientes mais raros, ela vai revelando um panorama encantador sobre o que se convencionou denominar "vanguardas européias". Entre grandes guerras, entre grandes homens e mulheres, descobrimos uma singela sopa de louro e a escandalosa receita de biscoitos de haxixe, que causou furor no lançamento do volume. Descobrimos também, que amor se faz com arte e renúncia, com coisas aparentemente simples como picar uma cebola ou arrumar uma mesa. Amor se faz com a parte de mim que cede a você e a parte de você que cede a mim. É isso. O resto é vida, sentimento, puro devaneio compartilhado.
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quarta-feira, 7 de novembro de 2007
ela e ela: colette e missy
Um dos maiores ícones literários do país das belas letras, a escritora francesa Colette era também sinônimo de irreverência, escândalo e liberação femininos. Nascida em 28 de janeiro de 1873, Colette começou a escrever sob o chicotinho de seu marido, Henri Gauthier-Villars (conhecido como Willy), que a trancava num quarto até que completasse algumas dezenas de páginas. Não pensem que o marido fazia isto para o bem da esposa: Willy a explorava, mantendo Colette no anonimato, assinando ele próprio os livros da escritora e embolsando seus direitos autorais. Direitos, aliás, polpudos, pois os romances da série “Claudine” se tornaram sucesso absoluto no país. Um dia, Colette não agüentou mais e revelou ser a verdadeira autora de “Claudine na Escola”, “Claudine em Paris” e os outros que se seguiram. Aproveitando o embalo e o gosto doce do reconhecimento, pediu o divórcio e finalmente se libertou do jugo do marido-escroque (ou começou a se libertar, já que o processo do divórcio e da retomada de seus direitos autorais foi bem demorado e complicado). Desejando novas experiências a partir da liberdade inédita, Colette resolveu aventurar-se no teatro, onde conheceu a baronesa de Morny, que patrocinava eventos no Moulin Rouge. A baronesa, apelidada de Missy, logo se apaixonou por Colette e foi plenamente correspondida. A escritora, sedenta de aventuras e entusiasmada pela nova paixão, propôs à baronesa-amante que atuassem juntas, como atrizes, numa peça de sua autoria.
Missy topou, mas, preocupada com possíveis reações adversas de seus pares (a nobreza francesa não admitia que um de seus membros atuasse em cabarés), resolveu atuar disfarçada, sob pseudônimo de Yissim e fazendo um papel masculino (foto). Assim, em meio a um tórrido romance lésbico, nasceu a peça “Revê d´Égypte” (Sonho do Egito), um dos maiores escândalos do Moulin Rouge. Não se sabe muito bem quem revelou, antecipadamente, a identidade secreta de Yissim. O fato é que, na noite de estréia, vários membros da nobreza se amontoavam nas primeiras fileiras para detonar e vaiar Missy e Colette. Antes mesmo que abrissem as cortinas, já se ouviam apupos da platéia que gritava “fora, sapatões!”, enquanto atiravam ao palco cascas de laranja, almofadas dos assentos, moedas velhas e até dentes de alho.
Apesar da gritaria, as duas iniciaram a performance, procurando desviar dos objetos que eram atirados. Colette fazia o papel de uma múmia que se apaixonava pelo seu descobridor, o arqueólogo interpretado por Missy. Quando então o arqueólogo tomou em seus braços a múmia seminua e deu-lhe um prolongado beijo na boca, o Moulin Rouge veio abaixo. No dia seguinte, os parentes da baronesa Missy exigiram que a polícia local proibisse o espetáculo. No entanto, a peça já havia atraído um público considerável, que fazia filas para a segunda apresentação. Como o administrador do teatro não queria desperdiçar um sucesso promissor, a produção tentou encontrar uma saída que não significasse o fim das exibições. Assim, para acalmar os ânimos dos parentes da baronesa, decidiu-se que Yissim (Missy) seria substituída pelo ator Georges Wague. Entrevistada logo após esta segunda apresentação, Colette lamentou “a covardia das pessoas que me insultaram”. Missy, mais calma, pediu que Colette “esquecesse aquelas pessoas”, ao que a escritora-atriz respondeu: “sim, contanto que eles nos deixem em paz”. Parece que seu pedido foi atendido, em parte: o espetáculo continuou em cartaz e, mesmo sem atuar, Missy permaneceu trabalhando nos bastidores. Depois de Paris, a peça viajou para outras cidades francesas. Colette e Missy continuaram enamoradas por muito tempo, provocando a claque conservadora, embaladas e inspiradas pelo beijo lésbico que escandalizou o Moulin Rouge naquele janeiro de 1907.
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quinta-feira, 25 de outubro de 2007
ela e ela: radclyffe hall e una troubridge
Radclyffe Hall (esquerda) nasceu Marguerite, mas para os íntimos era apenas John. Vestia-se elegantemente, tinha modos aristocratas e comportava-se como uma boa inglesa de linhagem notável. Dizia pertencer ao ramo que descendia de Shakespeare. Além de nome de homem, Hall gostava de vestir-se como um e adorava posar com calça de montaria e cigarro no canto da boca. Ela era acima de tudo uma amante à moda antiga, que acreditava em fidelidade e no casamento. Mas depois de alguns anos casada com a cantora de ópera aposentada Mabel Batten, começou a se envolver com uma mulher chamada Una Troubridge, prima de Mabel. O romance secreto foi ficando cada vez mais quente e Hall, por uma questão de dever, resolveu contar a verdade para sua esposa: havia se apaixonado por Una. Não se sabe se Mabel engasgou, pois estavam jantando, ou se pelo susto levantou-se de repente, teve um ataque e caiu em coma, vítima de um derrame. Mabel morreu alguns dias depois. Hall afundou-se em sentimentos de culpa e não conseguia mais manter relações íntimas e sexuais com Una. Então, foram procurar a espírita Gladys Leonard para contatar a falecida Mabel e tentar explicar para a pobre alma os motivos daquela traição. Para surpresa de ambas, durante a sessão a falecida se manifestou, perdoou as pombinhas e ainda disse a Hall que Una era a melhor esposa que ela poderia desejar para si - já que ela, Mabel estava morta mesmo.
Una Troubridge realmente transformou-se na melhor esposa que Hall poderia desejar: amante, secretária, tradutora, agente, empresária, dona-de-casa e relações públicas numa só pessoa. Com a ajuda de Una, Radclyffe Hall tornou-se, durante a década de 20, uma das escritoras que mais vendiam livros na Inglaterra. Depois, vieram os prêmios e o prestígio. Encorajada pelo seu sucesso e por sua posição privilegiada Hall decidiu então escrever um romance "em defesa das mais mal interpretadas almas do mundo: os invertidos!". Nascia assim "O Poço da Solidão", (sinopse aqui) certamente o romance lésbico mais importante do século. Tudo começou a acontecer muito rapidamente: num espaço de quatro meses o livro foi sucesso de vendas, criou polêmica e virou objeto de um processo legal que agitou a Inglaterra. Trinta anos depois de Oscar Wilde, a homossexualidade virava notícia novamente. Se por um lado a intelectualidade inglesa mobilizava-se em torno da questão da liberdade de expressão, por outro lado nunca a Inglaterra ouviu tanto a palavra "invertido". Em novembro de 1928 "O Poço da Solidão" foi finalmente proibido, acusado de obscenidade. Mas de obsceno o livro não tinha nada. Nem uma só cena de sexo. Era um livro comportado, que pretendia mais esclarecer que escandalizar. Hall queria provar uma tese recente e inovadora, de que a homossexualidade era inata. Portanto, não poderia ser considerada crime ou doença e deveria ser encarada com mais compaixão pela sociedade, cujo dever era acolhê-los e não rechaçá-los. Então, escreveu um romance onde a heroína lésbica acaba jogando a sua amada nos braços de um homem, para poupá-la do escárnio público: um sacrifício por amor bem ao estilo de seus outros romances açucarados que haviam feito tanto sucesso anteriormente. Apesar da proibição, o livro foi contrabandeado como droga afrodisíaca para a Inglaterra e Estados Unidos - onde também sofreu restrições - e virou cult nos países onde circulava livremente. Vendeu nas duas décadas seguintes uma média de 100.000 exemplares ao ano no mundo inteiro e é um fenômeno editorial que continua a ser reeditado e vende bem até hoje - um verdadeiro clássico. Depois do escândalo do julgamento, a carreira de Radclyffe Hall sofreu um baque. Apesar de não ter sido julgada - pois lesbianismo não era considerado crime - ela nunca mais emplacou um sucesso. Hall acreditava que a sociedade inglesa fosse capaz de tolerar e aceitar a homossexualidade. Errou. Era cedo demais. No entanto, conseguiu fazer com que todos falassem do amor que até então não ousava dizer seu nome. Marguerite Radclyffe Hall - John para os íntimos - morreu em 1943, aos 63 anos, de câncer. Ainda estava casada com Una. Mas não viveu para ver seu livro liberado na Inglaterra em 1949.
(fonte MixBrasil)
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domingo, 30 de setembro de 2007
ela e ela: eleanor roosevelt e lorena hickock
Mais de 50 anos antes de Bill Clinton usar o salão oval da Casa Branca para brincar com suas estagiárias, um outro presidente - Franklin Delano Roosevelt - também fazia das suas. Enquanto isso, sua esposa Eleanor (foto da esquerda), cansada das aventuras do marido, entregava-se á luta pelo social e estreitava uma amizade prá lá de íntima com a jornalista Lorena Hickcok (as duas na foto da direita). A primeira dama dos Estados Unidos, um belo dia se encheu das puladas de cerca do marido e resolveu se consolar nos braços de sua amiga e porta-voz, a jornalista Lorena. Eleanor conheceu Lorena quando esta foi designada para cobrir a campanha presidencial, em 1932. Foi Lorena quem deu a idéia a Eleanor de só dar entrevistas às jornalistas mulheres. Isso fez com que todos os jornais americanos acabassem contratando mais mulheres repórteres, uma coisa que agradou muito a primeira-dama, uma senhora cada vez mais engajada no movimento feminista. Eleanor escrevia cartas de 20 páginas, todos os dias, à Lorena, que destruiu a maioria delas, principalmente as que faziam referências ao relacionamento íntimo das duas. Mesmo assim, pode-se perceber o nível de envolvimento emocional das duas nas cartas trocadas. ...de Lorena para Eleanor: ...de Eleanor para Lorena:
"Hoje tentei me lembrar de seu rosto - tentei me lembrar exatamente como você é. Engraçado como mesmo o rosto mais querido desbota com o tempo. Me lembro mais claramente dos seus olhos, com um sorriso provocador, e a sensação daquele ponto, um pouco a noroeste de sua boca de encontro a meus lábios...Boa noite, minha querida, eu quero colocar meus braços ao seu redor, e beijá-la no canto de sua boca. E, dentro de pouco mais de uma semana - a beijarei!"
"Hick, querida. Durante todo o dia eu pensei em você e no próximo aniversário estarei com você e ainda assim, hoje à noite você pareceu tão distante e formal. Oh! Eu quero te abraçar. Dói querer você tão perto. Seu anel é um grande consolo. Eu olho para ele e penso 'ela me ama, ou então não o estaria usando..."
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quarta-feira, 15 de agosto de 2007
ela e ela: anne bonny e mary read
Ano 1720, século 18, época onde mulher era propriedade e posse de seus pais e depois de seus maridos, duas mulheres, piratas, são julgadas por pilhagem em alto mar. Acredite, elas existiram. Mary Read - usava o pseudônimo de "Mark" Read. A mãe de Mary há muito tempo atrás, na Inglaterra, vestia sua filha como um menino e fingindo assim que era seu filho a fim assegurar a herança dos avós paternos de Mary, que era reservado para um filho do sexo masculino. Mary veio eventualmente preferir tanto seu papel masculino que sua mãe deserdou-a. Ela então tornou-se aprendiz de sapateiro, e depois fugiu para juntar-se ao exército como um soldado. Ela casou com um soldado mas após três anos, seu marido morreu e assim ela novamente voltou a vestir roupas de homem e passou a assinar como um mercador holandês chamado Mark Read. Quando o navio em que estava foi capturado por piratas ingleses, ela decidiu juntar-se a eles. No porto de New Providence, Mary Read encontrou-se com Anne Bonny e tornaram-se rapidamente amigas. Mas, o marido de Anne Bonny, James, reapareceu reclamando sua esposa, isto é, sua propriedade. Ele a sequestrou e trouxe-a amarrada e nua diante do governador, e este sugeriu o "divórcio pelo leilão", mas Anne recusou ser, como ela mesma disse, “comprada e vendida como um porco ou o gado” e nenhum comprador ousou reivindicar tal "hellcat" (uma senhora com temperamento feroz). Diante disso o governador foi forçado a libertá-la na condição de que ela retornasse ao seu senhor legal, mas James, que somente queria o dinheiro, fugiu com medo da tempestade que tinha causado. Anne e Mary, juntas, prepararam assim dentro da corveta uma perseguição a James; ele escapou mas elas queimaram seu negócios. No devido tempo, o grupo pirata de Anne foi refeito, com Anne e “Mark” constantemente juntas a bordo do navio. Esta intimidade despertou o ciúme de Calico Jack, que ameaçou cortar a garganta de “Mark”, foi quando descobriu ‘Mark” estendida na cama com Anne, nua e visivelmente uma mulher. Apesar desta suposta descoberta do verdadeiro sexo de "Mark", Anne e Mary (a quem parou de chamar a si mesma de "Mark"), ficaram inseparáveis, e ambas alternavam-se em vestir roupas masculinas e femininas. No devido tempo pegaram o comando de outro navio, e os navios-de-guerra foram enviados para capturar "aquelas mulheres infames." Elas abandonaram todo cuidado e invadiram numerosos navios. E uma das vítimas de seus atos de pirataria foi a rainha real. Finalmente Anne e Mary foram capturadas pelo capitão Barnet. No calor desta batalha final seu grupo as abandonou recusando-se a lutar. Elas e seu grupo pirata foram trazidos à julgamento na Jamaica, e culpadas por pirataria em 28 de novembro de 1720, e sentenciadas à forca. Anne e Mary rapidamente "defenderam suas barrigas" apesar de nenhuma das duas estarem realmente grávidas, e foram perdoadas. Este era um pedido comum entre mulheres sentenciadas à morte, a ponto que nenhuma corte enforcaria a vida de um inocente embora estivesse por nascer. Anne Bonny visitou Calico antes que fosse enforcado, e dito "estou triste por ver você nessa situação, mas se você tivesse lutado como um homem não teria que agora morrer como um cão." Mary morreu de uma febre contraída na prisão, e Anne apenas desapareceu. Uma história improvável é que casou-se e retornou a Charleston. Uma história ainda mais improvável é que entrou em um convento de freiras. A literatura pirata não é anotada com exatidão, e nunca houve toda uma completa pesquisa sobre as vidas de Anne Bonny e de Mary Read. Nota: A história acima parece ser a mais exata e foi recolhida dos documentos mais originais da época. A evidência de sua homossexualidade não é assim bem definido, e a maioria era bissexual, assim o termo "lésbicas" não é estritamente exato. Alguns historiadores (homens) nos fizeram acreditar que Anne tinha rasgado as roupas de Mary, e ela mesma tinha descoberto o verdadeiro sexo de “Mark”. Isto é altamente improvável. As duas mulheres já tinham sido íntimas tempos atrás e por demasiado tempo e compartilharam de um estilo de vida tão difícil que era impossível não estarem inteiramente familiarizadas uma com o sexo da outra. E mesmo Mary se fingindo ser um homem, certamente Pierre (o amigo gay de Anne) teria descoberto a verdade há muito tempo atrás. O fato de retirar do episódio as partes consideradas incedentes (bowdlerization) e as tentativas de "explicar isso de outro modo" são típicos de como este par ousado é tratado; Anne Bonny freqüentemente aparece na literatura para crianças e em algumas caixas de cereais do tipo Shredded Wheat, onde ela é convencionalmente "normalizada" ao ser retratada como meramente uma senhora de um capitão pirata, ao invés da líder que ela realmente foi. O episódio em que Calico Jack descobre as duas juntas na cabine, na cama e sem roupas, tornou-se mais preocupante para os historiadores heterosexuais que deviam ter visto algo nisso. Sobretudo, é ímpar que as únicas duas piratas mulheres nos registros da históricos deviam ter terminado juntas, e nós não podemos levemente admitir seu amor óbvio um pela outra. Mas é impossível ignorar totalmente o ambiente lésbico de seu relacionamento e devemos levar em consideração o fato que agiram juntas como um casal e obviamente amarem uma a outra; assim a evidência sugere que devem ser relevantes para qualquer história de experiência lésbica. moedas cunhadas em homenagem a Anne Bonny e Mary Read
Anne Bonny - a maioria dos historiadores acha que ela nasceu em Kinsale, na Irlanda em 1697 e como Anne Cormac. Filha ilegítima do advogado William Cormac e de sua empregada, Mary Brennan. A esposa de William fez de seu adultério um ato público, assim depois de perder sua reputação, William com sua nova esposa e filha recém-nascida decidiu deixar a Irlanda e iniciar sua carreira de advogado novamente. Eles compraram uma plantação no mundo novo da pré-independência e assim Anne foi criada até os treze anos nos EUA, na Carolina do Sul. Embora fosse filha de um rico advogado e proprietário de plantações, seu cabelo vermelho era cortado curto, sua cara era suja, e seus hábitos eram brutos. Conforme notas, Anne "cresceu amarrada, e era menima exaltada, de um temperamento feroz e corajoso" que mais de uma vez lhe deixou em situação complicada e dolorosa. Depois de perder sua mãe quando ainda era adolescente, Anne foi tomada conta pela empregada doméstica. Existem muitas estórias sobre seus 10 anos de idade; alguns dizem que Anne assassinou a empregada com uma faca, e existem outras que dizem sobre um homem jovem que ela colocou no hospital por diversas semanas, depois de sua tentativa fracassada de agressão sexual contra Anne. Mas aparte dos ataques ocasionais de seu temperamento era uma filha boa e obediente. Anne Bonny era uma mulher forte e independente, e que estava à frente do seu tempo, quando ainda era época que o homem tomava todas as decisões importantes, e época em que as mulheres não tinham direitos. Anos depois Anne era vista freqüentando os tavernas do porto. Seu pai deserdou-a quando ela fugiu com o amante James Bonny; por vingança, ela queimou sua plantação, em seguida fugiu para uma enseada controlada por piratas. Num curto espaço de tempo, ela descartou seu marido, e foi viver com o pirata Capitão Jennings e sua amante Meg. Aconselhada a conseguir alguma proteção masculina, transformou-se na amante de Chidley Bayard, o homem mais rico da ilha. Mas finalmente, ela abandonou Bayard pelo pirata John "Calico Jack" Rackham. Outros amigos homens de Anne foram gays, como Pierre Bouspeut ou chamado simplesmente de "Pierre, o pirata homossexual", que trajava vestido e era o designer de roupas finas de veludo e de seda.
(texto retirado do blog "Ligeiramente Lésbica")
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sábado, 21 de julho de 2007
ela e ela: elizabeth bishop e maria carlota de macedo soares
viveram 15 anos juntas.
a história de Lota e Bishop é intensa, o encontro de dois gênios, Lota a criadora do Aterro do Flamengo, modernista, carioca apaixonada e Bishop uma das maiores poetisas da língua inglesa. Maria Carlota de Macedo Soares (foto da direita), a Lota veio de família da elite carioca. Dirigia um Jaguar, usava calça jeans e camisas. Não fez universidade, mas teve aulas com ilustres como o pintor Cândido Portinari e tornou-se uma esteta com conhecimentos profundos em arquitetura e urbanismo. Sua obra de maior visibilidade foi o Aterro do Flamengo, que lhe rendeu desavenças, sobretudo com o paisagista Roberto Burle Marx. Lota Macedo Soares também sofreu com problemas familiares. Desgastada emocionalmente com a separação dos pais, resolveu morar sozinha aos 25 anos, o que já significou um pequeno escândalo na alta sociedade. Retornando de um período em Nova York, quis construir seu retiro no terreno da serra recebido como herança, no bairro de Samambaia, em Petrópolis. 
Elizabeth Bishop (foto da esquerda) é considerada a maior poetisa norte-americana do século 20. O melhor de sua produção se deu nos anos de reclusão com Lota Soares, na Casa da Samambaia em Petrópolis. Ali produziu “Poems”, que lhe valeu o prêmio Pulitzer (1956) e o reconhecimento internacional. Para Lota, ela escreveu “Banho de Xampu”. No Brasil, Bishop livrou-se de um passado negativo: era alcoólatra e tinha problemas com a falta de uma família. O pai cometeu suicídio quando ela tinha oito meses e a mãe que entrou em surto psicótico a partir disso, passou o resto da vida em clínicas psiquiátricas.
A escritora chegou ao Brasil em novembro de 1951, fugindo de mais uma crise. Consultora de poesia na Biblioteca de Washington, mas julgando-se incapaz para o cargo, caiu em depressão e buscou refúgio numa colônia de escritores. Quando bebia demais, ela mesma se internava. Achou que era hora de realizar o sonho de uma viagem de circunavegação pela América do Sul. Pode-se dizer que o motivo inicial da permanência de Bishop no Brasil foi a ingestão de um caju, que lhe provocou uma crise alérgica, inchando e deformando suas mãos e rosto. A atenção dispensada pelos brasileiros a encantou, e mais ainda a declaração de amor que Lota lhe fez. Tendo vivido com os avós maternos numa aldeia de pescadores, a paisagem de Petrópolis fez com que retomasse um olhar sobre sua própria infância. Por volta dos sete anos foi morar com os avós paternos, cercada de pessoas sisudas. No conto "A Ratinha do Campo", escreve que se sentia ‘com o mesmo status do cachorro da casa”. Na adolescência, descobriu sua homossexualidade, o que a tornou ainda mais arredia e silenciosa.
Com ajuda do arquiteto Sergio Bernardes projetou a casa de Samambaia, um marco da arquitetura brasileira moderna. Nos sete anos que duraram as obras, Lota e Bishop viveram em condições inóspitas, sem água, sob a luz de lampião. Quando Carlos Lacerda tornou-se governador da Guanabara no final de 1960, em nome da amizade pessoal, Lacerda convidou Lota a realizar uma obra pública. Começou então o tumultuado processo de construção do Aterro do Flamengo, encabeçado por uma mulher sem diploma universitário. Para aterrar a área, o morro de Santo Antonio foi desmanchado a jatos d’água. Para criar a praia do Botafogo, retirou-se areia do fundo do mar, com a mesma draga que abriu o Canal do Panamá. Com a derrota do candidato de Carlos Lacerda em 1965, Lota foi retirada do comando dos trabalhos, o que resultou em três meses de internação para sonoterapia. Quanto à relação com Elizabeth Bishop, houve um desgaste inevitável devido aos cinco anos de obras no Parque, com Lota trabalhando de 12 a 14 horas por dia. Relegada, a poetisa voltara ao álcool e não mais produzia, acabando por aceitar um convite para dar um curso em Seattle.
Quando voltou em meados de 1966, Bishop já tinha outra companheira, bem mais jovem. Preterida, Lota tornou-se neurótica e transferiu a obsessão pelo trabalho para a ex companheira, que saiu de cena a pedido dos médicos. Em setembro de 1967, Elizabeth Bishop recebeu em Nova York a visita de uma mulher totalmente fragilizada, física e mentalmente. Na mesma noite da chegada, Lota tomou um vidro de Valium. Depois de uma semana de coma, seu coração parou. Bishop depois de resolver complicadas pendências judiciárias, relativas à herança que Lota lhe deixou, retornou definitivamente aos Estados Unidos, onde ensinou poesia em Harvard e na New York University. Faleceu em 1979 vitimada pelo rompimento de um aneurisma.
(por Nadia Nogueira – historiadora e professora da UNICAMP)
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segunda-feira, 9 de julho de 2007
ela e ela: jane bowles e sherifa
o incrível romance entre uma americana judia e uma marroquina muçulmana Em tempos de polarização entre ocidente e oriente vale a pena lembrar de um curioso caso de amor entre duas mulheres durante os anos 50 e 60. O romance entre a escritora americana Jane Bowles (foto) e a marroquina Cherifa foi cercado de assombro, suspeitas e desconfianças de todos que as conheciam, árabes ou ocidentais. O motivo para tanta intriga foi simplesmente o enorme fosso entre duas culturas tão distantes. E, no entanto, o amor brotou entre as duas mulheres, a despeito da torcida contrária de ambos os lados. O ano é 1947 e Jane e Paul Bowles, um casal muito moderno de escritores americanos, chega para uma longa temporada em Tânger, no Marrocos. Entediado da vida na América, Paul vivia buscando aventuras em países exóticos. Nem sempre Jane o acompanhava e nem mesmo Paul esperava que ela o fizesse - afinal, aquele não era um casamento típico. Para completar, Paul era gay, Jane era lésbica e o casamento, pasmem, não era de fachada - eles se amavam verdadeiramente. Quando chegaram ao Marrocos - para morar definitivamente - o sentimento nacionalista da população começava a tomar proporções grandiosas, inspirado pela crescente popularidade da Liga Árabe. O país, no entanto, continuava sob tutela da França e o ambiente era aparentemente calmo. 
Um dia, durante uma visita ao mercado da cidade, Jane ficou fascinada com uma vendedora de uma barraca de grãos - Cherifa. Ao contrário de Paul, que conseguia namoradinhos árabes em cada esquina, Jane logo descobriu a tarefa dificílima de penetrar no mundo das mulheres árabes, sempre escondidas atrás dos véus e dos muros dos haréns. Mas a americana gostava de aventuras e era persistente. Logo ficou amiga de Cherifa, mas percebeu que não podia convidá-la para ir ao seu quarto de hotel e nem seria convidada para conhecer a casa de Cherifa em Medina. Tudo isso porque, sendo muçulmana, Cherifa precisava da permissão de um homem de sua família para sair de casa ou para convidar qualquer um a entrar em sua própria casa. Convidar Jane, então, era uma heresia! Primeiro, tratava-se de uma "inimiga" européia. Não adiantava Jane explicar que era americana - para eles, ocidental era tudo a mesma coisa. Em segundo lugar, Jane era uma "nazarena", como os marroquinos costumavam chamar os cristãos em geral. Pouco facilitava Jane dizer que era judia - ela era muito diferente dos judeus de Tânger, pobres e de pele escura, que moravam em Medina (cidade velha) e com os quais os marroquinos tinham familiaridade. Lembrem-se: o estado de Israel ainda não existia e judeus e árabes não eram inimigos declarados ainda. Mesmo diante de tantos problemas e mal-entendidos, o amor e a atração falaram mais alto: Jane e Cherifa começaram a namorar. Pensando em tornar tudo mais fácil, Jane saiu do hotel e alugou uma casa em Medina para que Cherifa pudesse freqüentá-la. Mesmo assim as coisas se complicaram. Cherifa só aparecia quando Jane lhe dava algum presente.
A escritora americana logo entrou em crise com a situação: ora Charifa lhe pedia uma raquete de tênis, ora um par de sapatos e chegou até a pedir um táxi para trabalhar como motorista em Tânger! Não demorou muito para os amigos americanos dos Bowles desconfiarem da marroquina: ela era uma interesseira que não dava a mínima para o amor de Jane. Seria verdade? Ou apenas outro mal-entendido? O que os amigos americanos não percebiam é que os familiares de Cherifa também a pressionavam do outro lado: Cherifa precisava tirar algum lucro material da relação. Segundo o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, o marido deve sustentar a sua mulher e, portanto, Jane deveria sustentar Cherifa! Não que os familiares de Cherifa aprovassem ou reconhecessem a verdadeira natureza de sua relação com Jane mas, se a marroquina dedicava-se tanto à americana, a ponto de praticamente morar na mesma casa, era natural que existisse uma compensação financeira. Mas não adiantava Jane explicar. Os amigos dos Bowles e os familiares de Cherifa achavam aquela relação muito estranha. A situação chegou ao ápice dez anos depois quando Jane Bowles sofreu um sério derrame que deixou sua capacidade de ler e escrever comprometida. Entre a comunidade americana em Tânger o boato era que Cherifa havia envenenado a sua amante - até mesmo Paul partilhava dessa suspeita.
O cerco ao redor de Cherifa aumentou quando um criado achou pequenos patuás espalhados pela casa. Cherifa disse que sim, fora ela quem fizera os patuás, mas eram apenas uma mandinga para "pegar amor". Ninguém acreditou. Americanos que sempre ridicularizaram os hábitos e costumes primitivos dos marroquinos agora acreditavam na magia negra supostamente perpetrada por Cherifa. Eles a acusavam de ter tentado matar Jane e se esqueciam que a escritora americana era uma hipertensa que não tomava remédios, já sofrera alguns ataques e que bebia uma garrafa de gim por dia, acompanhada de 3 maços de cigarros. Recuperada após vários tratamentos na América e Europa (mas ainda com afasia) Jane voltou a Tânger para morar com Cherifa. Coincidentemente, seu regresso foi logo após o Marrocos ter declarado sua independência, libertando-se da tutela européia depois de coroar o rei Mohammad V. Desta vez Jane encontrou uma Cherifa de cabeça erguida, talvez mais orgulhosa pela autonomia de seu país. Jane percebeu esta mudança quando, durante um pileque num bar, começou a distribuir dinheiro e as roupas que usava para quem passasse a sua frente. Cherifa que, como sempre, estava ao seu lado não aceitou nem um tostão. Desta vez recusou-se a receber qualquer coisa de Jane. Mas nunca a abandonou. Cuidou da amiga/amante americana enquanto Paul, o marido de Jane, viajava pelo mundo, para outros países mais exóticos, mais distantes e mais ao oriente - mais para lá ainda de Marrakesh. Jane Bowles morreu em 1973, sozinha, numa clínica em Málaga, Espanha, depois de ser internada pelo marido. Paul morreu há poucos anos atrás. Quanto a Cherifa, ninguém sabe se está viva ou morta.
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Mara*
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