flutuando como pena nas asas do vento, aqui estou, entre pequenas estrelas e grandes vazios, envolta neste silêncio ensurdecedor no meio do nada. porque me deixaste ficar aqui enquanto voas?
Alarido matutino dos bem-te-vis na mangueira, fez-se alvorada. Mais uma vez ela veio, assim, com hora marcada. Moça bonita chegou faceira, anunciada e cortejada pelos pássaros. Ouço os grãos se abrindo e perfurando a terra dura e triste. O ar que me afaga a face está mais doce, o vento que me despenteia, perfumado. Porque a primavera é mulher, é cheiro, fragrância, perfume. É saudade, é promessa, certeza de não morrer. Ouço a voz que ficou ausente na profunda floresta dentro de mim a sussurrar magias. Caminho por desejos e anseios, e aos poucos, rompo o gelo que aniquila minha alma. Flor sem tempo, renasço em tons multicores entre borboletas, libélulas, abelhas, hortelãs e alecrins dourados. Vejo a quem amo, nos olhamos por sobre o muro do pensar. É a primavera piscando estrelas.
Chegaste quando já não eras esperada. E eu te vi toda de azul. E o seu jeito provocador desafiou restos de uma velha ousadia e desbravou caminhos que eu julgava fechados. Enlouquecemos numa loucura só nossa. Seguimos a vontade e esquecemos o resto do mundo. A vontade foi superior. Mesmo não sabendo quem era você te abracei, encostei a minha boca na tua e procurei a tua língua. Senti suas mãos em mim, docemente, a sua língua em cada pedaço meu, senti o teu cheiro e o teu sabor. Belo foi o amor que fizemos. Agora sozinha deixei voar o pensamento. Não há lua, mas há o sonhar, há o recordar. Refiz os abraços e olhares, os toques e sensações, e mais uma vez me perdi no teu amor encantado, me balancei nas tuas águas. Adormeci. E acordei com o desejo de voar contigo e encontrar mais uma vez o brilho das estrelas que você me deu.
Fui além-mar para conhecer-te. Passei pelas límpidas águas de uma cachoeira e bebi dos teus sonhos. Ando tão frágil, que tuas palavras feitas para sonhar fizeram-me chorar um choro novo e manso. Vi a tua lágrima e em um sol abrasador planava leve, como a alma, a ave liberta. Senti o fogo ardente de quem sente e a cavalgar vi a morte anunciar feitiços. Consciente ri e refleti. Procurei em teus caminhos, e não encontrei, uma portinhola para ao menos dizer-te – estive por aqui. Insone a mente implorou por descanso, mas o pensamento ainda viajou até ela, nos raios enfraquecidos de esperança morri um pouquinho mais nas lembranças de nós duas, como posso explicar o que é perder a peça fundamental de mim e continuar? Naquele momento optei por deixar de lado a minha loucura que anda a falar com as paredes caiadas, emprestei as tuas palavras e sussurrei-lhe baixinho “diz que amas o nosso amor”. Que ela tenha me ouvido. Que você volte a visitar-me.