frase do dia: ‘a homofobia é mais uma constatação da perda da ternura no mundo, ser
preconceituoso com os LGBTs é retroceder; além de prejudicar o crescimento humano.’

(letícia spiller - atriz brasileira)

última atualização: 19/08/2009 20:36:42

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terça-feira, 21 de julho de 2009

ideologia homofóbica


Pesquisas de opinião pública confirmam que, de todas as minorias sociais, os homossexuais são as maiores vítimas do preconceito, mais rejeitados que os negros, os judeus e as mulheres. Gays e lésbicas são constantemente vitimados pela propagação de uma ideologia anti-homossexual nos meios de comunicação. Somos ridicularizados nas TV's e apresentados como ‘doentes’, ‘devassos’ e ‘pervertidos’ pela imprensa sensacionalista e, inclusive, pela grande imprensa. Além disso, instituições fundamentais do regime brasileiro, como a Igreja e o Exército, condenam a homossexualidade veementemente e pregam abertamente a extirpação deste ‘mal’. Os efeitos dessa ideologia, para as lésbicas e gays, são terríveis. Uma pesquisa realizada pela revista ‘Veja’, demonstra o grau de discriminação que nos vitima.


Alguns exemplos:

79% dos brasileiros ficariam tristes se tivessem um filho ou filha homossexual;
79% dos entrevistados não aceitariam que seu filho saísse com um amigo gay. Na região do Nordeste a taxa de não aceitação pula para 87%;
56% mudariam sua conduta com o colega se soubessem que ele é homossexual. Uma em cada cinco pessoas se afastaria;
56% não concordam que um candidato homossexual seja eleito Presidente da República;
47% dos entrevistados mudariam seu voto caso fosse revelado que o seu candidato a uma eleição é homossexual;
45% trocariam de médico se descobrissem que ele é gay. O mesmo aconteceria com o dentista, que perderia metade dos clientes;
44% acreditam que os homossexuais provocaram o aparecimento da Aids. Dois terços dos entrevistados com nível universitário discordam;
36% deixariam de contratar um homossexual para um cargo em sua empresa, mesmo que ele fosse mais qualificado;

Em uma outra pesquisa feita com 250 clínicos gerais em São Paulo revelou que 30% deles consideram a homossexualidade uma doença, isso quando, desde 1985, a Organização Mundial de Saúde, retirou de seu código internacional de doenças o artigo que qualificava o homossexualismo como uma doença. Tal aversão dos brasileiros a profissionais homossexuais atinge também ídolos do futebol.

Se na Europa multiplicam-se publicações humorísticas de fundo racista, como os ‘Guias para Xenófobos’, da Ravette Books (Bruxelas), no Brasil a imprensa segue a onda e cede às pulsões primitivas, fazendo, cada vez mais freqüentemente, uso de expressões chulas, vulgares e obscenas. Tempos atrás, o jornalista autoproclamado ‘macaco Simão’ forjou um modelo de comentário debochado, que foi se firmando na ‘Folha de S. Paulo’ (um dos maiores jornais do Brasil). A colunista Bárbara Gancia publicou, no mesmo jornal, um artigo intitulado ‘Homossexual é sabão para partes íntimas’, discorrendo levianamente sobre o tema.

Ainda mais confuso, André Forastieri, editor da revista ‘General’, escreveu artigo no ‘Folhateen’ (caderno dirigido para adolescentes, também no mesmo jornal) decretando que ‘o rock é e sempre foi coisa de bicha, por definição’, pois ‘esse negócio de querer aparecer, de ser rebelde, de rebolar e mostrar a todos como sua sensibilidade é aguçada - é meio perobinha’. Para ele, ‘qualquer modelo tonta que dá uma bicota em outra já quer os privilégios de ser lesbian chic e nos cérebros de minhoca de certas bichas modernas e descoladas, ser bicha já é suficiente para merecer um tratamento especial’. E ele conclui: ‘O importante para você, leitor homossexual, é ter consciência que ser homossexual não te garante tratamento vip. Aliás, nem tratamento igual. Os ricos têm privilégios sobre os pobres, os brancos sobre os negros, os homens sobre as mulheres, os bonitos sobre os feios, os heterossexuais sobre os homossexuais. É duro? É injusto? É a vida!!!!' (fontes: revista 'Veja' e Grupo de Pesquisa da Discriminação da USP – Universidade de São Paulo)



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segunda-feira, 13 de julho de 2009

30 idéias para ajudar a causa GLBT

Assuma-se (autoestima, orgulho e aceitação)

30 idéias - assuma-se1) Por mais que existam piadas, comentários, opiniões e até religiões reforçando o preconceito e a homofobia e tentando esculhambar os homossexuais, lembre-se de que a sua orientação sexual não vale menos do que as demais, nem é motivo de vergonha. Você não é melhor ou pior do que os outros (muito menos sujo, pecador, culpado ou doente) por ser homo, bi ou heterossexual. Sua sexualidade é apenas mais um detalhe sobre você, assim como a cor dos seus olhos.

2) Sair do armário pode ter um custo na vida pessoal que deve ser avaliado. Mas também pode trazer benefícios. O fim das mentiras é sempre um alívio. Vencido o estranhamento inicial, suas relações ficam mais próximas, profundas e autênticas, com parentes e amigos gostando de quem você é de verdade. Além disso, você faz sua parte para que a sociedade assimile melhor a diversidade, ao mostrar a ela referências diferentes dos estereótipos. Pense nisso e tome sua decisão, no momento oportuno e para as pessoas que julgar adequado (você não precisa dividir sua intimidade com todo mundo).

3) Dê apoio àquele(a) amigo(a) que saiu ou foi retirado(a) do armário. Mesmo se foi uma decisão precipitada ou as conseqüências foram desastrosas, jamais lamente ou critique. Um e-mail, um telefonema, um convite para um café (ou, em casos extremos, uma mãozinha para conseguir um novo lar ou um novo emprego), são boas maneiras de ajudar.

4) Não tenha medo de andar de mãos dadas, beijar e fazer as mesmas carícias que outros casais podem trocar em locais públicos. Ninguém tem o direito de pedir que você pare de fazer aquilo que é permitido aos demais. Expressar seu carinho não significa agredir ninguém e você não precisa ficar constrangido por isso.

5) Da próxima vez que você ouvir uma piada escrota ou um comentário maldoso contra homossexuais, não finja que acha natural, muito menos engraçado. Avalie quem são seus interlocutores e, se você achar que vale a pena, mostre que essas visões são fundadas em preconceitos e idéias inadequadas. Muitas vezes, o problema é de falta de informação (o que também vale para quem fala em 'homossexualismo' e 'opção sexual'). Você pode ajudar a mudar a mentalidade sem se tornar um patrulheiro chato.

6) Não semeie o preconceito interno. Você pode preferir alguns estilos, tribos ou grupos, com quem tem mais afinidade. Mas isso não lhe torna melhor do que os 'afeminados' (ou as 'masculinizadas'), pobres, nordestinos, negros ou gordos, nem lhe dá o direito de desprezá-los ou humilhá-los. Não faz sentido gays falarem mal de travestis, travestis falarem mal de lésbicas, lésbicas falarem mal de gays...

Defenda-se (consumo, preconceito e justiça)

30 idéias - defenda-se7) Exerça seu poder de consumidor. Boicote produtos e serviços oferecidos por empresas com posturas homofóbicas ou propagandas preconceituosas. O mesmo vale para programas de TV que ridicularizam homossexuais. Por outro lado, prestigie estabelecimentos que simpatizem com a causa – mas tente diferenciar os que são genuinamente friendly daqueles que não passam de oportunistas de plantão.

8) Você viu alguém levando um 'coió', sofrendo violência física? Chame a polícia imediatamente. Seja solidário e preste todo tipo de socorro à vítima que estiver ao seu alcance, sem se colocar em perigo. E testemunhe em favor do ofendido, caso ele decida prestar queixa. Pesquisas apontam que boa parte dos LGBTs que sofrem violência não relata o ocorrido a ninguém. Mas denunciar é a única maneira de atacar o problema e combater a impunidade.

9) Se você sofrer preconceito, discriminação e/ou violência em razão da sua sexualidade em qualquer lugar público, não se cale: denuncie. Quem está em São Paulo conta com o apoio da Lei Estadual nº 10.948 e não precisa expor sua identidade. Pesquise se na sua cidade ou estado há leis contra a discriminação, ou mesmo órgãos e delegacias especializados. Mesmo se não houver, o Ministério Público está em todo lugar e pode ajudar. Existem ONGs que podem ajudá-lo no contato com as autoridades.

10) Sofreu perseguições, humilhações, foi despedido por conta da sua orientação sexual? Reúna provas e testemunhas (ambas são indispensáveis!), procure um advogado e corra atrás dos seus direitos. Para quem não tem condições financeiras de bancar um advogado, a Defensoria Pública presta assistência jurídica gratuita e tem defensores especializados em LGBTs. O processo judicial levará tempo, mas a vitória proporcionará a reparação dos danos e ainda servirá de exemplo – para quem sofre processar, e para quem persegue pensar duas vezes.

11) Quando você se deparar com um site ou qualquer outra manifestação homofóbica na internet, denuncie à SaferNet. Faça o mesmo quando encontrar algo sexista, racista ou preconceituoso contra qualquer outra população.

Oriente-se (informação e política)

30 idéias - oriente-se12) Leia jornais e/ou assista ao noticiário na TV. Mantenha-se informado sobre o que acontece na sua cidade, no seu país, no mundo - e não apenas no meio gay.

13) Procure conhecer a história dos políticos em quem você pensa em votar. Você pode escolher candidatos mais comprometidos com os interesses da causa LGBT – e ajudar a evitar que outros militem contra nós e fechem portas importantes. Mas não vote em alguém só porque ele é homossexual ou aproveita para fazer palanque nas manifestações e depois some.

14) Saiba quais são os projetos de lei de interesse LGBT que aguardam votação: o que eles preveem e como eles podem mudar a sua vida.

15) Acompanhe a atuação dos parlamentares em quem você votou no que se refere às ações contra a homofobia. Pesquise se eles integram a Frente Parlamentar pela Cidadania GLBT. Comunique-se com deputados ou senadores e cobre deles apoio aos projetos e compromisso com a cidadania LGBT.

16) Registre seu apoio ao PLC 122 (que criminaliza atitudes homofóbicas em todo o território nacional) através do Alô Senado, um serviço telefônico que permite que cidadãos se manifestem sobre iniciativas em trâmite no Congresso. Basta ligar para 0800 61 22 11 e pedir que senadores do seu Estado, em especial aqueles que fazem parte da Comissão de Assuntos Sociais, votem pela aprovação do projeto. Se você não sabe quem são os senadores do seu Estado, a telefonista poderá informar. A operadora vai solicitar dados pessoais, mas não se preocupe: isso é apenas para evitar que uma mesma pessoa faça várias ligações. É seguro e gratuito. O mesmo pode ser feito por meio do site.

Engaje-se (participação social e voluntariado)

30 idéias - engaje-se17) Manifeste suas convicções para o mundo. Pode ser abrindo um blog, com temas de interesse político de LGBT, ou mesmo escrevendo uma carta a uma revista de grande circulação ou ao jornal da sua cidade. Opiniões favoráveis aos nossos direitos precisam ser ouvidas pela sociedade.

18) Colabore com pesquisas sobre LGBT, seja sobre saúde, direitos, violência ou qualquer outro tema. Para que as autoridades tracem políticas públicas, elas precisam conhecer melhor nossa população.

19) Considere a ideia de fazer algum tipo de trabalho voluntário. Há muitos segmentos que precisam de ajuda, dentro e fora do universo LGBT.

20) Existem muitas ONGs organizadas para defender interesses da população LGBT. Tenha um pouco de curiosidade e disposição e procure conhecê-las. Informe-se sobre os projetos, divulgue suas campanhas, atividades e iniciativas.

21) Preste ajuda financeira a ONGs, casas de apoio ou iniciativas pró-LGBT cujo trabalho você conheça. Para conseguir mais doações, faça um jantar ou festa e peça aos amigos para trazerem dinheiro, no lugar do presente. Se você tem uma boate, bar ou similar, uma maneira de colaborar é escolher um dia por ano e destinar uma parte da renda que faturar.

22) Pense também em outras formas de auxílio material, além de dinheiro. Casas de apoio recebem doações de roupas, móveis, utensílios e até produtos de limpeza. Ou a cesta básica que você recebe no trabalho e não utiliza. Ou aquele computador velho que você encostou quando comprou um mais moderno.

23) Ofereça-se para traduzir textos dos sites de instituições pró-LGBT para o inglês, o espanhol, o francês ou outras línguas que você conheça. Você não precisa sair de casa, não gasta nada e faz um trabalho que custa caro para a maioria das entidades.

24) Colabore oferecendo algumas horas semanais do seu trabalho. Conforme o seu ramo de atividade, você pode prestar assessoria jurídica a uma ONG, ou atendimento psicológico a pacientes convivendo com o vírus HIV/AIDS, ou desenvolver quaisquer outros trabalhos na sua especialidade. Seja criativo e pense em como aproveitar sua formação para colaborar com a causa.

25) Se você é homem, relaciona-se com outros homens e não contraiu o vírus HIV, ofereça-se para participar do IPrEx. É uma pesquisa em escala global para testar um medicamento usado no tratamento de soropositivos e descobrir se ele é eficaz para evitar o contágio. O estudo é conduzido pelo Hospital das Clínicas (São Paulo) e pelo Instituto de Pesquisa Evandro Chagas da Fiocruz (Rio de Janeiro). Outras pesquisas sobre vacinas e medicamentos devem ser implementadas até a obtenção de resultados no combate ao HIV. Todas merecem sua atenção.

Cuide-se (sexo, drogas e outras travessuras)

30 idéias - cuide-se26) Sexo seguro é uma opção pessoal, cuja responsabilidade é de cada um. Não se baseie em aparências ou presunções – elas enganam. A decisão de abrir mão do preservativo em um relacionamento precisa ser muito bem pensada pelos dois parceiros, e nenhum deles deve pressionar o outro na negociação. Se você fez esse pacto e depois se expôs a uma situação de risco, não deixe tudo como está: reintroduza o sexo seguro na relação, faça os exames e repita-os após 3 meses e 6 meses. Não exponha o parceiro que confiou a saúde a você.

27) Busque informações sobre todas as doenças sexualmente transmissíveis. Não se preocupe apenas com o HIV e a AIDS. Há outras DSTs cujo contágio se dá com muito mais facilidade, sem necessidade de troca de fluidos entre os parceiros. Conheça os sintomas internos e externos e lembre-se de que prevenir é bem melhor do que remediar. Por essa mesma razão, fazer exames sorológicos periodicamente (sobretudo de HIV e hepatites) também é uma boa ideia. Não existe vacina para a hepatite C, mas, para a A e para a B, sim. Em alguns casos, essas vacinas são disponibilizadas gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

28) Vai sair para fazer uma pegação básica? Ande com algumas camisinhas a mais no bolso, e distribua para os colegas que necessitarem. Qualquer posto de saúde fornece preservativos gratuitamente. Saunas também.

29) Foi flagrado fazendo pegação em um parque, banheiro ou qualquer outro lugar público? Você deve saber que cometeu uma infração. Mas esse delito é considerado como de menor potencial ofensivo. Pelo caminho correto, você será conduzido à delegacia (jamais mantido em cárcere privado numa 'salinha da segurança', muito menos agredido fisicamente!), será lavrado um termo circunstanciado e você responderá, em liberdade, a um procedimento no Juizado Especial Criminal, que costuma resultar em condenação ao pagamento de cestas básicas. Lembre-se que a polícia tem corregedoria e ouvidoria para investigar abusos. Mesmo tendo cometido uma infração, você possui direitos que devem ser respeitados.

30) Antes de pensar em ingerir drogas, anabolizantes ou medicamentos pesados, informe-se sobre os efeitos, riscos e conseqüências do uso de cada uma dessas substâncias, e passe essas informações adiante sempre que puder. O responsável pelos seus atos não é o seu amigo, o atendente da farmácia ou o professor da academia, muito menos o traficante – e sim você, somente você. (fonte: 30 idéias)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

gay para quê?

Relações homossexuais são quase universais no reino animal e podem ser agentes importantes de mudança evolutiva, afirma uma dupla de pesquisadores dos EUA. No entanto, eles alertam que os zoólogos podem estar rotulando de ‘homossexualismo’ uma série de comportamentos diferentes. O estudo, publicado no periódico ‘Trends in Ecology and Evolution’, é uma revisão das pesquisas já feitas sobre relações homossexuais animais. Essa área ganhou grande atenção do público após 1999, quando o zoólogo Bruce Baghemil publicou o livro ‘Biological Exuberance’, documentando homossexualismo em mais de 400 espécies. Há milhares de exemplos na literatura.

Que machos gostem de fazer sexo com machos e fêmeas com fêmeas é um enigma evolutivo. Afinal, um gene gay (ou vários genes) seria eliminado, pois à primeira vista ele não ajuda a espécie a se perpetuar. Qual é, então, a vantagem da homossexualidade para os animais?

Os autores do novo estudo, Nathan Bailey e Marlene Zuk, da Universidade da Califórnia em Riverside, dão um exemplo. Veja as fêmeas do albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis), do Havaí. Essas aves se unem em casais lésbicos que às vezes duram a vida inteira para criar os filhotes, especialmente quando há escassez de machos. Até um terço dos casais da espécie são formados por fêmeas. O resultado é que elas têm mais sucesso do que fêmeas ‘solteiras’ na criação dos filhotes. O comportamento homossexual, portanto, muda a dinâmica da população, e pode ter consequências evolutivas importantes.

A conclusão do estudo é que não existe apenas uma vantagem universal. Ao contrário, a homossexualidade ajudou as espécies de diferentes formas ao longo da evolução. O nome designa, então, vários fenômenos diferentes, com motivações distintas. Por isso, é complicado transpor essas conclusões para humanos. Existe homossexualidade numa variedade grande de animais: moscas, lagartos, golfinhos. Qual animal tomar como medida para comparar conosco?

Entre os animais, os mais próximos de nós são os bonobos. As fêmeas dessa espécie de chimpanzé são vistas frequentemente se relacionando sexualmente e não raro atingem o orgasmo dessa maneira. Alguns machos se beijam e praticam sexo oral uns nos outros. É mais difícil entender as causas do homossexualismo em primatas, especialmente em humanos. A quantidade de fatores envolvidos é muito maior. Ao contrário do que acontece com os peixes-mexerica, por exemplo, não se trata de algo simples como não saber diferenciar machos e fêmeas.

Algumas coisas, entretanto, se sabe. Estudos com gêmeos mostram que existe uma tendência hereditária a ser gay ou lésbica. Mas esses trabalhos não conseguem mostrar quais os mecanismos por trás disso. Além disso, comportamento homossexual é diferente de orientação sexual. Foram encontradas boas explicações para o primeiro item no reino animal, mas ainda é complicado entender quais as vantagens evolutivas que se pode ter simplesmente nunca se relacionando com seres do outro sexo. (de ricardo mioto para Folha de S.Paulo)






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segunda-feira, 15 de junho de 2009

espinha dorsal da 13ª parada gay: ativismo

Sem trios de boates GLS, a Parada Gay de São Paulo reforçou o tom político em sua 13ª edição. Pela primeira vez em muitos anos nenhuma casa noturna participou do evento. A produção do clima de festa ficou, então, nas mãos dos carros de militantes. Eram grupos engajados não apenas em causas especificamente gays, mas em defesa do ambiente e da igualdade racial, além da promoção de igrejas e sindicatos. A lei estadual antifumo, que proibirá o cigarro em locais fechados de São Paulo a partir de agosto, foi divulgada no desfile. Frases em defesa da lei estampavam camisetas e bolas infláveis gigantes, em várias cores, eram rebatidas entre a multidão.

Carros de sindicatos como os dos enfermeiros (Seesp) e dos professores (Apeoesp), comunidades religiosas como a ‘Cristã Nova Esperança’ chamavam a atenção pela militância no chão, com muitos representantes e cartazes. Com o tema ‘Não Homofobia’, um caminhão de som na avenida convidava o público a participar de um abaixo-assinado que defende projeto de lei federal que torna crime discriminar homossexuais. O ativismo gay foi a espinha dorsal do evento.

Assim, quem sabe, um dia, teremos por aqui a organização e o engajamento da parada gay de New York que acontece na 5ª Avenida, que além de fazer parte do calendário da cidade, já tem lugar garantido na cultura cívica dos Estados Unidos. Lá o espetáculo não é apenas carnavalesco, é político. O respeito é mútuo. Durante várias horas, o desfile só é interrompido para a passagem do tráfego que cruza a cidade no sentido contrário e não poderia ser retido. A paciência existe de ambos os lados: a marcha suspende o seu fluxo, obediente e resignada, para que os carros cruzem a pista, retribuindo a tranquilidade com que esses aguardaram sua vez. O cumprimento de regras gera tolerância.

Tudo com muitas cores, música, dança e algumas cenas de nudez e exaltação erótica, tudo como aqui, mas com uma diferença gritante: cada grupo de manifestantes traz uma mensagem. Desfilam representantes de instituições de pesquisa, religiosas, filantrópicas, fundações, ONGs, hospitais e associações dos mais diversos tipos. Também grupos profissionais de professores, médicos, sacerdotes das mais diversas tradições, advogados e juízes, enfermeiros, escoteiros, militares e artistas proclamando a solidariedade, a fraternidade, a tolerância, o cuidado com o outro e o amor.

Muitas famílias presentes: casais homossexuais com seus filhos, pais exibindo seu orgulho pelos filhos homossexuais, irmãos, primos, tios proclamando sua solidariedade. Grupos da terceira idade, repudiando o preconceito de que são vítimas e afirmando sua orientação gay, trazendo consigo uma história atormentada e vitoriosa. E até um grupo profissional que teria tudo para manter-se distante daquele festival: os policiais. Homens e mulheres do famoso ‘Departamento de Polícia de New York’ desfilam uniformizados ao som de sua banda. Um dia chegaremos a isso.

13ª Parada Gay de São Paulo

parada gay são pauloparada gay são paulo
parada gay são pauloparada gay são paulo

sábado, 30 de maio de 2009

descobri que meu filho é gay, e agora?

A revista ‘Época’ fez uma entrevista com Edith Modesto, 71 anos, fundadora da ONG Grupo de Pais de Homossexuais. Na entrevista, ela conta que, apesar das conquistas da militância GLBT, quando o tema da diversidade sexual surge entre quatro paredes, a situação é mais difícil.

edith macedoHá quinze anos, a filósofa e professora da USP a paulista Edith Modesto descobriu que um de seus sete filhos era gay. Entrou em desespero e começou a se informar sobre homossexualidade. Nesse processo de aceitação, Edith percebeu a dificuldade dos pais em aceitar ter um filho homossexual. Resolveu, então, criar uma ONG, o ‘Grupo de Pais de Homossexuais’, que atende homens e mulheres que sofrem e têm dúvidas em relação à homossexualidade de seus filhos - um trabalho único no Brasil.

Apesar dos avanços sociais no tema diversidade sexual, quando o assunto entra nos lares, tudo muda de figura: as mães negam, têm culpa, ficam perdidas. Mulheres que durante a vida tiveram amigos íntimos homossexuais e um dia, ao se deparar com um filho gay, enlouquecem, não aceitam. Adoecem e algumas até pensam em suicídio. Não entendem. Homossexuais são vistos nas novelas, o assunto diversidade sexual não é mais um tabu, mas dentro de casa tudo muda. Dentro de casa avançou menos. O preconceito está enraizado em todos nós, de alguma forma. Homossexuais ainda são expulsos de casa, e aqueles pais que mantêm o filho em casa, não aceitam a sua homossexualidade.

edith macedo e o filho marceloPais e mães reagem de forma diferente. A mulher é mais afetiva, mais compreensiva. Os homens são mais frios, mais machistas - embora as mulheres também sejam. Quando se sabe que um filho é homossexual, a reação de ambos é ruim. Porém os homens tendem a atitudes mais agressivas ou se isolam do problema, enquanto que as mulheres enfrentam a questão que mais se aproxima de uma aceitação. Para os pais é mais difícil ter um filho gay do que uma filha lésbica. O pai quer que o filho seja seu espelho, quer a continuidade da linhagem. Se a filha é lésbica, para os pais é mais 'disfarçável', já que ela pode ter amigas, demonstrar afeto, dormir juntas. Se o rapaz pega na mão do amigo, o mundo cai.

Os pais dos homossexuais passam por fases quando descobrem a homossexualidade de seus filhos. Todas as pessoas do mundo foram criadas e se prepararam para ter filhos heterossexuais. Ninguém foi preparado para ter filho gay. Então, a fase da descoberta é cercada, para a grande maioria, de culpa e negação. Muitos acreditam que se trata de algum problema psicológico, de uma fase de experimentação ou mesmo de safadeza. Tentam mostrar ao filho que existe um caminho melhor, o que aumenta o sofrimento para todos. Outros entram logo na fase de tentar saber tudo sobre gays e lésbicas. Querem entender. Entender para tentar aceitar. Passam a ler tudo. Principalmente as mães por serem ainda levadas pela vertente da psicologia que diz que a culpa é sempre da mãe.

Autora dos livros ‘Vidas em Arco-Íris’ e ‘Mãe Sempre Sabe?’, na ONG ‘Grupo de Pais de Homossexuais’ que criou Edith já foi até procurada por uma psicanalista especialista em sexualidade ao descobrir que a filha é lésbica. Em outro caso, a diretora de uma escola a procurou, contando que um menino de 13 anos estava apanhando na escola e em casa, por mostrar traços de homossexualidade. Até mães evangélicas, que acreditavam que o filho estivesse com o diabo no corpo, também foram acalmadas.

O trabalho da ONG é baseado na solidariedade, não se julga e nem se faz militância. São as mães que mais procuram a ONG, pais são mais raros. Não é fácil ser diferente. Não é fácil ver um filho sofrer por ser homossexual. (fonte: revista Época - entrevista de edith macedo concedida à jornalista martha mendonça)



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terça-feira, 12 de maio de 2009

bra-burning, a fogueira que não aconteceu

Miss America 1969

Em 7 de setembro 1968 aconteceu, nos EUA, uma manifestação de protesto com cerca de 400 ativistas do WLM (Women’s Liberation Movement), um dos primeiros grupos de libertação das mulheres no país, e foi contra a realização do concurso de ‘Miss América’ no 'Atlantic City Convention Hall'. O episódio ficou conhecido como ‘Bra-Burning’ ou ‘A Queima dos Sutiãs’. O protesto chocou o país, criando uma grande quantidade de publicidade, e alguns mitos, sobre o novo movimento. Cerca de 150 cidades aderiram às feministas. O protesto foi menor em 1969 e foi praticamente ignorado.

Na verdade, a ‘queima de sutiãs’ nunca aconteceu. Mas a atitude foi incendiária e serviu para atacar o machismo, o racismo e a opressão da mulher. A escolha da americana mais bonita entre as que desfilavam como gado para mostrar os seus atributos físicos era tida como uma visão arbitrária da beleza por causa de sua exploração comercial.

Bra-Burning - a queima de sutiãsObjetos da opressão feminina - sutiãs, sapatos de salto alto, cílios postiços, sprays de laquê, maquiagens, revistas, espartilhos, cintas - e outros ‘intrumentos de tortura’ foram colocados no chão do espaço permitido para manifestações. E aconteceu a proposta de se queimar o conteúdo, o que não aconteceu, pois foram proibidas pelos policias já que um incêndio representava um risco para o local, uma grande área de placas de madeira que ficava entre o 'Convention Center' e a praia. Os sutiãs também ninguém tirou. Mesmo assim, dezesseis feministas compraram bilhetes para a noite do desfile. Sentadas na primeira fila gritaram frases de efeito como ‘Freedom for Women’ and ‘No More Miss America’ e fizeram um discurso. Todas as manifestantes foram retiradas da sala, cinco foram detidas, mas depois liberadas.

A lenda da queima de sutiãs surgiu porque, ao dar ampla cobertura para o evento, a mídia o associou a outros movimentos, como o da liberação sexual e dos jovens que queimaram seus cartões de segurança social em oposição à Guerra do Vietnã, e passou a chamá-lo de ‘bra-burning’, encorajada por ativistas como Robim Morgan, ex-estrela-mirim da rádio e TV e depois escritora, poeta e editora. A manchete do ‘New York Post’ saiu com o título ‘BraBurners and Miss America’, e desde então a cultura popular ligou para sempre as feministas à ‘queima de sutiãs’ Depois disso, aconteceram queimas de sutiãs em vários cantos do mundo.

Bra-Burning - a queima de sutiãsNo ano seguinte houve a convocação para mais um protesto: ‘Don't Miss America’. Foram programadas mais ações. Porém, muito pouco aconteceu. Logo que as mulheres marcharam para o Boardwalk a polícia ameaçou prendê-las. Um oficial examinou o protesto a ser lido para ver se tinha qualquer linguagem ofensiva e as mulheres foram mantidas na praia, bem longe da entrada do salão onde aconteceria mais uma escolha da Miss América.

Broches com o desenho de um punho fechado no interior do símbolo biológico feminino foram distribuídos, concebidos em branco e com as letras em vermelho representando o sangue menstrual, tornou-se a marca da liberdade da mulher embora outros estilos e em várias cores tenham surgido ao longo das décadas seguintes.

'Bem-vindo ao Miss América, leilão de gado'
Bra-Burning - a queima de sutiãs

segunda-feira, 6 de abril de 2009

derrotas de março

Antes que março acabe, eu queria dizer o que me derrota. A Itália descobriu um caso repugnante de estupro seqüencial de pai e filho contra a mesma mulher, filha e irmã dos dois. A Áustria encarcerou o monstro que manteve a filha no porão, prisioneira de estupros contínuos. Aqui, a discussão da menina que em Recife foi estuprada e engravidou do padrasto ficou em torno da decisão medieval do bispo. Estes são apenas casos de março, outros surgiram: o da menina de 13 anos, no Brasil, que, grávida do pai - por quem passou a ser violentada a partir da morte da mãe -, decidiu ter o filho. Cada um dos dramas é tão vasto.

Penso nestas meninas e mulheres e na antiguidade da sua pena. Condenadas, antes de nascer, pelo mais intratável dos lados da opressão à mulher: o suplício sexual. Melhor seria escrever uma coluna racional, com os dados que provam a exclusão da mulher do poder no mundo, ou da sua discriminação no mercado de trabalho, ou do preconceito embutido nas propagandas. Seria menos doloroso. Há pesquisas novas, interessantes. Com os dados, eu provaria que a mulher avançou nos últimos anos, e que a sociedade equânime ainda está distante. Falar desse aspecto do problema seria até um alívio.

Mukhtar MaiMas o que tem me afligido são esses casos espantosamente cruéis que acontecem em países diferentes, classes sociais diferentes, religiões diferentes. A vítima é sempre a mulher. A sharia, que voltou a ser código aceito em todo o Paquistão, condena a mulher a receber a pena no lugar de alguém da família que tenha cometido um delito. Normalmente, a pena é estupro público e coletivo. Foi assim com a notável Mukhtar Mai, a paquistanesa que venceu seus estupradores em uma luta desigual e heróica na Justiça comum. No livro ‘A desonrada’, ela contou seu suplício e sua vitória.

Eu poderia fingir que não sei das estatísticas da violência contra a mulher, e pensar que cada caso é apenas mais um louco em sua loucura, pegando uma vítima aleatória. Melhor ainda, poderia fugir completamente do tema. Afinal, esta é uma coluna de economia e as pautas e assuntos são inúmeros. A nova regulamentação do mercado financeiro americano para prevenir crises como a atual; ou o desequilíbrio econômico e financeiro dos países do Leste da Europa; ou ainda o risco de déficit em conta corrente nos países exportadores de commodities metálicas. Assuntos áridos, fáceis. Qualquer um deles permitiria que esta coluna fosse para longe do horror imposto às mulheres por pais, padrastos, irmãos, namorados, ex-namorados, maridos, ex-maridos.

eloáEm qualquer um desses temas eu teria muito a dizer, mas o que dizer da morte da jovem Ana Claudia, de 18 anos, esfaqueada no pescoço pelo pai do seu filho, de quem tinha se afastado, saindo da Bahia para São Paulo, para fugir dos maus-tratos frequentes? Ou Eloá, a menina de 15 anos morta pelo ex-namorado, depois de sofrer por dias, em frente a uma polícia equivocada? Na época do caso, o comandante da operação, o coronel Eduardo Félix de Oliveira, definiu Lindemberg Alves, o assassino de Eloá, como um ‘garoto em crise amorosa’. Era um algoz que espancou e matou sua vítima.

O abuso de crianças não escolhe sexo. A pedofilia faz vítimas entre meninos e meninas, e em ambos é igualmente abjeta e inaceitável. Mas a frequência, a crueldade, a persistência dos ataques às meninas mostram que o crime é parte de um outro fenômeno mais antigo: o da violência contra mulheres de qualquer idade. As leis que mantêm a desigualdade em inúmeros países, com o argumento de que essa é a cultura local, o alijamento da mulher das estruturas de poder, a recorrência de casos em que ex-namorados ou maridos matam para provar que ainda têm poder sobre suas vítimas são alguns dos vários lados de uma velha distorção.

Como estão enganadas as mulheres que, por terem tido algum sucesso em suas carreiras, acham que a questão da condição feminina, a velha questão feminista, está ultrapassada. Apenas começou o trabalho de construir um mundo de respeito. Mas se é fácil discutir políticas públicas para vencer o poderoso inimigo da desigualdade, é paralisante o tema dessa vasta violência praticada em todos os países, em todas as culturas, em tantas casas contra meninas e mulheres que não conseguem se defender.

É espantoso o caso da mulher italiana, de 34 anos, vítima desde os nove anos de idade dos estupros do pai e depois do irmão, que também estuprou suas próprias filhas. Ela chegou a ir à polícia há 15 anos, mas não foi levada a sério. Hoje tem problemas psicológicos. Como não ter? Pode-se encarcerar cada um dos estupradores e condená-los. Eles merecem toda a punição que a lei de cada país comportar. Mas é preciso ver o horizonte: os casos são frequentes demais, as estatísticas são fortes demais, para que sejam apenas aberrações eventuais.

Março tem um dia, o oitavo, que é ‘da mulher’. Não pela efeméride, mas por envolvimento com o tema, eu costumo aproveitar a data para analisar, neste espaço, algum aspecto da discriminação contra a mulher. Mas, este ano, a imagem da pequena e frágil menina de Recife me derrotou. Tenho tido medo que nunca acabe o sofrimento das pessoas que integram a parte da Humanidade à qual pertenço. Fico, a cada novo caso, como os muitos deste março, um pouco mais derrotada. (por miriam leitão, publicado em 'O Globo')

terça-feira, 31 de março de 2009

mulheres e o cinema

Engana-se quem pensa que na indústria cinematográfica o papel da mulher limitou-se apenas ao estrelato ou ao de escritora-roteirista. E que, somente recentemente, é notória a presença do ‘sexo frágil’ na direção e na produção da sétima arte, como no caso de Sofia Coppola, cineasta estadunidense, filha do também cineasta Francis Ford Coppola e prima do ator Nicolas Cage; ou Lucia Puenzo, diretora e roteirista argentina do seu primeiro filme XXY, citado no post anterior ou ainda, as brasileiras Tizuka Iamazaki e Carla Camurati.

Surpreendentemente, até 1920, na época do cinema mudo, existiram mais diretoras, produtoras e proprietárias de estúdio que em qualquer outra época na história do cinema, inclusive nos dias de hoje. A maioria dos atores eram mulheres, algumas delas com as suas próprias produtoras de filmes. E com mais da metade de escritores-roteiristas sendo mulheres, pode-se dizer que elas controlaram a indústria de filmes.


É quase inexistente material bibliográfico sobre este assunto. Diretoras e produtoras menos conhecidas nessa época são apenas citadas. Nomes como: Nell Shipman, Elizabeth Pickett, Marguerite Bertsch, Lule Warrenton, Ruth Stonehouse, Margery Wilson, Ida May Park. Outras, consideradas mais importantes, são citadas em material considerável. São elas: Alice Guy-Blaché, Lois Weber, Dorothy Arzner, Ida Lupino e a roteirista Francis Marion.

Alice Guy-Blaché

Alice Guy-Blaché, foi uma das principais representantes desse período. Francesa, foi a primeira diretora de filmes da história, que chegou a dirigir, produzir e/ou supervisionar cerca de 300 filmes em sua vida. Ela aparece também, causando controvérsias, como a verdadeira criadora da narrativa para o cinema. Não teríamos então Georges Méliès como o pai da narrativa no cinema, e sim Alice Guy, já que seu primeiro filme ‘La Fee aux Choux’ de 1896, foi realizado alguns meses antes do filme de Méliès. Alice Guy começou sua carreira no cinema quase que ao acaso. No final do século XIX, trabalhando como secretária, depois passou a produzir pequenos filmes.

Lois Weber Lois Weber foi outra figura feminina no cinema, foi uma das muitas diretoras empregadas pela ‘Universal’ nos clássicos anos de Hollywood de 1910 e 1920. Lois Weber foi a primeira mulher a produzir, dirigir, estrelar e co-escrever um filme de um grande estúdio. Chegou, em alguns anos, a ser ‘o diretor’ mais bem pago no cinema mudo. Weber estava totalmente convencida que o cinema era um instrumento para o aprimoramento da moral e cidadania, uma das poucas verdadeiramente idealistas no cinema.

Seus filmes eram focados nos problemas sociais que a mulher e a sociedade enfrentavam na época. Aborto, controle de natalidade, racismo, pena de morte, prostituição e promiscuidade eram tratados por ela com firmeza em face das inevitáveis controvérsias inflamadas por seus filmes. Assim, Weber prosseguia com seus ‘filmes missionários’, como ela própria os chamava, e conseguia sucesso, sem exploração. Mas no começo dos anos 20, os filmes de Weber começaram a fracassar nas bilheterias. Terminou sua carreira trabalhando como consultora de roteiros para a Universal na década de 30.

Dorothy ArznerDorothy Arzner, já homenageada por mim (saiba mais sobre ela clicando aqui), foi única mulher, e assumidamente lésbica, a trabalhar como diretora nos tempos áureos dos grandes estúdios. Dorothy Arzner começou sua carreira em 1922, inicialmente como montadora, passando logo a roteirista e, enfim, diretora. Dirigiu aproximadamente 18 filmes, entre 1927 e 1943. Dorothy Arzner, além de ter introduzido o microfone boom (o de teto), em seu último filme, de 1943, fez propaganda anti-nazista. Conseguiu com muita dificuldade manter-se na indústria, numa época onde só homens trabalhavam como diretores.

Francis Marion Francis Marion foi uma das maiores escritoras-roteiristas de Hollywood que entre as décadas de 10 a 50, escreveu pelo menos 136 roteiros que chegaram a ser produzidos, passando sem esforço pela transição do cinema mudo para o falado. Esses números se comparados com os atuais, mostram que hoje em dia é uma raridade encontrar roteiristas com pelo menos dez roteiros de filmes produzidos e finalizados. Marion iniciou sua carreira de roteirista em 1916 em uma produção com Mary Pickford que torna-se sua companheira de filmes. Marion trabalhou com quase todos os principais diretores do cinema mudo, além de escrever filmes para as principais estrelas da época. Muitos dos filmes de Marion eram de gangsters e tiroteios, a antítese dos '’filmes de mulheres’. Talvez essa fosse a receita de seu sucesso nos grandes estúdios onde conseguiu manter-se durante um bom tempo.

Ida LupinoIda Lupino foi uma das mais produtivas diretoras de todos os tempos. Entre 1949 e 1954, dirigiu seis filmes em sua própria companhia, enquanto atuava em outros sete filmes dirigidos por outros. Como a pioneira Lois Weber, Lupino usava assuntos polêmicos, de consciência social que resultavam em temas para seus filmes como: estupros, bigamia, paralisia infantil, mães solteiras. Mas, diferentemente de Weber, Lupino era antes de tudo uma ‘entertainer’ e não uma pregadora. E por trabalhar também como atriz, Lupino sabia atuar, literalmente, do outro lado. Depois de 1954, Ida Lupino trabalhou somente em seriados de televisão, seja como diretora, produtora ou atriz. Seriados como ‘O Fugitivo’, ‘Perdidos no Espaço’, ‘Os Intocáveis’, entre muitos outros passaram por suas mãos e, não leve um susto, se ao rever alguns clássicos da TV, como ‘Batman’ ou ‘As Panteras’, a convidada especial for Ida Lupino.



Temas relacionados:
dorothy arzner

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

histórias de mulher

Tempos atrás, um urso matou um caçador sueco. Foi em Pitea, distrito do norte da Suécia. Na mesma semana, uma mulher, mãe de três filhos, foi morta a machadadas pelo seu ex-companheiro. A imprensa local deu mais destaque à morte do caçador, já que violência contra a mulher é mais comum. O final da história foi inesperado: os homens se rebelaram e exigiram mudanças nas leis suecas de proteção à mulher.

Larry SummersHá ofensas que promovem avanços, sem querer. Larry Summers é um desses insuspeitos beneméritos. Foi ele ofender as mulheres que o poder trocou de mãos em Harvard. Ele perdeu o emprego, e Harvard é presidida por uma mulher. A arrogância de Larry Summers é velha conhecida dos economistas, da época em que ele era subsecretário do ‘Tesouro dos Estados Unidos’. Menos conhecida era sua ignorância. Ele disse alguma coisa sobre a mente das mulheres não estar preparada para a ciência, para as exatas. Para ter dito isso, precisava desconhecer a contribuição de inúmeras mulheres para o avanço de varias áreas da ciência.

hipátiaUma história remota e pouco conhecida é a de Hipátia, um dos gênios da matemática da Antiguidade. Nasceu no ano 370 d.C. Bonita e inteligentíssima, era professora no ‘Museu de Alexandria’. Foi responsável por avanços no conhecimento da geometria e da astronomia e também inventou alguns instrumentos da física. A maior parte da sua obra teórica foi queimada junto com a biblioteca. Por ser pagã no avanço do cristianismo, foi morta violentamente nas ruas de Alexandria por fundamentalistas seguidores de São Cirilo, em 415.

Se, antes de falar, Summers tivesse feito uma pequena pesquisa, descobriria que o século XIX registra um número de, pelos menos, 80 mulheres relevantes para a ciência. E isso antes do século XX, no qual as mulheres deram o primeiro grande salto. O segundo será no século XXI, na ocupação de espaços de poder. Atribuir limitações, ou especialidades incapacitantes, à mente da mulher é velho como o mundo.

Mas os adeptos nunca se cansaram de novas teses. Em 1968, dois antropólogos, Richard Lee e Irven Devore, escreveram ‘Man the Hunter’. A tese era: os homens caçavam e as mulheres eram coletoras; e foi na caça, nos desafios da estratégia e da produção de armas e ferramentas, que se desenvolveu o córtex cerebral. Detalhe: que inteligência sobrou às mulheres, supostamente dedicadas às atividades pouco desafiadoras? A estultice dos dois antropólogos foi responsável, dizem alguns, por um aumento enorme de mulheres no estudo da antropologia, para desmontar a teoria, da qual não restam frangalhos.

O caso sueco de 2005 está descrito na tese da finlandesa Johanna Niemikiesilainen, professora da Universidade de Umea, que acompanhou as reformas que se seguiram à dupla morte: da mulher e do caçador. A virada do jogo foi iniciada por um homem: Hans Hansson. Ele organizou um movimento de homens contra a violência contra a mulher, conseguindo 10 mil assinaturas, num pedido ao Ministro de Justiça por leis mais rigorosas e políticas mais eficientes de proteção à mulher sueca contra esse problema universal. E daí saiu, de fato, uma reforma com tipificação de novos crimes e aumento das penas para as várias formas de violência.

Existe a afirmação de que o problema está quase resolvido. Esse prematuro baixar de armas é o maior risco. Os números comprovam isso: com todos os progressos e mudanças, a presença de mulheres nos parlamentos ainda é mínima na média mundial. E quem sobe a média não são os Estados Unidos, França ou Japão, mas países africanos, como Etiópia, Uganda, Burundi e até Ruanda de acordo com os dados da ‘União Parlamentar Mundial’. A Suécia, claro, tem um bom numero. Segundo a ONU, 98 países adotam atualmente um sistema de cotas para aumentar a presença de mulheres no Congresso. Isso elevou, de 1999 a 2006, o número de mulheres parlamentares de 5 mil para 7,1 mil. Mas, eram apenas 11 as mulheres chefes de Estado no mundo no começo do Terceiro Milênio. O século XIX viu nove mulheres comandarem países, uma delas, a Princesa Isabel, nos três anos e meio de ausência do pai.

A mudança acontece, mas é lenta ainda. A ONU criou um indicador para acompanhar, em cada país, a desigualdade de gênero. Ao avaliar 164 países, concluiu que só houve progresso significativo em 51 deles. No Brasil, houve progresso enorme na educação, com as mulheres até superando os homens nos indicadores educacionais, mas, nos salários, elas estão numa situação contraditória: recebem 82% do que ganham os homens. A estratégia de poder que deu o comando ao homem tem sido bem-sucedida desde o começo da humanidade. Não é tarefa fácil desmontá-la. (fonte: O Globo - por miriam leitão – jornalista)


do blog: não memórias de uma lésbica
por: marcia paula

caos 99 - um conto futurista
parte I
parte II
parte III
parte final

sábado, 14 de fevereiro de 2009

o guia das meninas más

'Ser mulher é uma deliciosa sobremesa gelada, ser uma menina má é a cereja que vem em cima'.

Em qualquer idade, o fato de seres mulher mexe contigo. É a tua carta na manga, o teu livre-trânsito, o teu acesso garantido à primeira classe. Ser mulher é o que faz com que sejas quem és. É a tua fonte de poder, o teu ingrediente secreto e o teu êxtase. Ser mulher é a melhor coisa que te podia acontecer. É o teu maior comprimento de onda, a tua medalha de mérito, o teu brinde especial. Usa-o com respeito.

As meninas más fazem com que as coisas aconteçam. Uma menina má sabe o que quer e como consegui-lo. Dita as suas próprias regras, escolhe o seu caminho e não pede desculpa a ninguém. Sabe quando está na altura de conquistar o público, limar arestas e limar as suas curvas, ou tudo isso ao mesmo tempo. Uma menina má é aquela com quem toda a gente quer sair e que não se deixa enganar por ninguém. Toda ela é energia, autoconfiança e graça. É o teu sonho mais ousado e a tua loucura mais secreta. Uma menina má és tu no teu melhor, sejas tu quem fores, seja qual for o teu estilo.

Depois de acenderes o rastilho da maldade, começarás a ouvir a musa, aquela vozinha impertinente dentro da tua cabeça que te incita a ir à luta, a confiar nos teus instintos e a descobrir o ponto G da tua própria vida. Seja qual for o teu objetivo neste mundo, o teu lado mau é a arma perfeita para o alcançares. É o joystick com que tu controlas a ação. É o teu superpoder. Uma bombinha de mau cheiro que te põe a rir durante os longos sermões da vida. Tirar partido da tua maldade é o melhor método para fazeres o que tens a fazer e gozares o que tens a gozar. Entrarás na roda das meninas más, a zona do êxito, esse ponto mágico no tempo em que tudo se combina a teu favor.

bad girlHá uma menina má dentro de cada mulher. Talvez nunca tenhas dado por isso. Talvez não acredites. Mas ela está lá. Vai buscar os velhos álbuns de fotografias, de quando eras criança. Repara bem nas tuas fotografias aos dez ou doze anos, sete ou oito, quatro ou cinco. Recua até onde for preciso para encontrar o sorriso perverso, os olhos chamejantes, a menina de roupas ridículas que só ela era capaz de amar e apreciar. Procura o ar dengoso, o fogo, a menina que ainda não sabia o suficiente para ter medo dos seus próprios desejos. Quando a encontrares, saberás. Ser má não é infringir a lei. É infringir as regras, é acordares com uma grande admiração por ti própria.

más companhias




meninas más na música

Billie Holiday
Janis Joplin
Josephine Baker
Tina Turner
Bessie Smith
Aretha Franklin
Bonnie Raitt
Courtney Love
Melissa Etheridge
Annie Lennox
Queen Latifah
A menina má anteriormente
conhecida por Prince

meninas más no cinema

Marilyn Monroe
Raquel Welch
Barbara Stanwyck
Tallulah Bankhead
Marlene Dietrich
Betty Davis
Mae West
Sharon Stone
Rita Hayworth
Christina Ricci
Greta Garbo
Katharine Hepburn


meninas más que ficaram na história

Eva
Joana d’Arc
Amelia Earhart
Eva Perón
Ana Bolena
Rainha Isabel I

meninas más na literatura

Jane Austen
Anaïs Nin
George Sand
Audre Lorde
Colette
Susan Sontag

meninas tão más que nem precisam de apelido

Eva
Madonna
Telma & Louise
Xena
Cleópatra
Colette



(fonte: 'O Guia das Meninas Más Para Conseguirem o Que Querem', livro de Cameron Tuttle)










selo que ganhei da rosa chisholm
do blog pride les

Obrigada querida pela lembrança...


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

a mulher como medida

barack e michele obama

Eu tive a oportunidade de assistir a uma entrevista de Michele Obama, bem antes dela ser a mais nova primeiradama dos Estados Unidos, no programa de Oprah Winfrey, e fiquei encantada com a sua simplicidade e personalidade forte, ‘nervosa’ como a definem os conservadores. Nos poucos momentos em que pude ver, pela TV, a posse de Barack Obama, o que mais me chamou a atenção foi à sintonia fina que existe entre o casal, sentida pela troca de olhares entre os dois. Estava eu aqui a escarafunchar os neurônios para escrever algo poético a esse respeito quando li o texto ‘A mulher como medida’ do jornalista Luiz Caversan, e os meus neurônios foram apaziguados diante do belo pensar e escrever sobre os 'pops' Barack e Michele Obama.

E Obama acaba de estender o carinho e respeito que tem por Michele para todas as mulheres americanas ao assinar hoje 29/01/2009, sua primeira lei, o histórico 'Ato Lilly Ledbetter', que promove igualdade de pagamento entre homens e mulheres. Lilly Ledbetter, que dá nome ao projeto de lei, era supervisora da fábrica de pneus da ‘Goodyear Tire & Rubber’ e processou a empresa por discriminação de pagamento pouco antes de se aposentar, após 19 anos de serviço. Ledbetter ganhava US$ 6.500 a menos que o supervisor com menor salário. Barack assinou a lei em honra a sua avó, que trabalhou no banco a vida inteira e para as filhas, para que elas tenham oportunidades que a mãe e avós não imaginavam ter. (fonte: FolhaOnline)

A mulher como medida
por Luiz Caversan

'Nunca confie num homem que não respeita a mulher'. Esta frase, com a qual há de se concordar inteiramente, é do jornalista Caco Barcellos. Foi dita durante uma entrevista a Marília Gabriela no final do ano passado. Já estava para escrever sobre a frase do Caco, linda e das que devem ser registradas, mas faltava oportunidade ou o chamado 'gancho' - ou seja, a motivação jornalística que leva alguém a escrever alguma coisa. E o gancho veio no dia da posse de Barack Obama. Já havia observado o clima de total cumplicidade e intimidade que permeia o relacionamento público dele e Michele. Olho no olho, atenção permanente, sorriso franco. Ambos sempre lado a lado, nunca o homem na frente da mulher. Isso eu já havia percebido em inúmeras outras aparições públicas do casal, mas ficou muito mais evidente nas diversas oportunidades em que os dois foram flagrados, tão elegantes, cordiais e cordatos, durante as longas cerimônias da posse, das quais participaram também merecendo atenção e carinho, as duas mocinhas filhas de ambos.

É encantador o olhar que Obama sempre dedica à sua mulher, seus gestos delicados e sua deferência. A se fiar no paradigma do Caco Barcellos, este comportamento revela alguém em que se pode confiar. Um querido amigo, a quem fiz essa observação outro dia, preferiu o ceticismo e lembrou a música de David Bowie na qual ele afirma ‘I' m afraid of americans’ (‘Eu tenho medo de americanos’). Ok, motivos há, basta ter lido o noticiário relativo a eles nos últimos 20 anos. Nunca, porém, tinha visto naquele posto tão poderoso, não apenas um negro, um jovem multicultural, um político com idéias tão atraentes, mas sobretudo alguém tão respeitoso e delicado com mulheres. Prefiro, até segunda ordem, portanto, fazer um voto de confiança.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

a mulher na idade média: alguma coisa mudou?

a mulher na idade média

Na Idade Média, a maioria das idéias e dos conceitos era elaborada pelos eclesiásticos. Para esses homens a mulher ao mesmo tempo em que era tida como a culpada pelo pecado original, a Virgem Maria foi a mulher que deu ao mundo o salvador e redentor dos pecados. E esse conceito do feminino está presente no cristianismo desde a sua consolidação baseada em uma doutrina repressora. As mulheres eram consideradas pelo clero como criaturas débeis e suscetíveis às tentações do diabo, logo, deveriam estar sempre sob a tutela masculina.

A principal preocupação com as mulheres era mantê-las virgens e afastar os clérigos desses seres demoníacos que personificavam a tentação carnal. Afinal, todas elas descendiam de Eva, a pecadora, a tentadora, aliada de Satanás e culpada pela queda. Eva concentra em si todos os vícios que trazem símbolos femininos, como a luxúria, a gula, a sensualidade e a sexualidade. Todos esses atributos apareciam nos sermões feitos pelos pregadores. E como forma de salvação para a mulher, eles ofereciam a figura de Maria Madalena, a prostituta arrependida que se submeteu aos homens e a Igreja.

A partir do século XI, com a institucionalização do casamento pela Igreja, a maternidade e o papel da boa esposa passaram a serem exaltados. As filhas eram totalmente excluídas da sucessão, quando contraiam matrimônio recebiam um dote constituído de bens que seriam administrados pelo marido. A linhagem beneficiava apenas componentes do sexo masculino, e a herança só era passada para o primogênito. O casamento era um pacto entre duas famílias, seu objetivo era simplesmente a procriação. A mulher era ao mesmo tempo doada e recebida, como um ser passivo. Sua principal virtude, dentro e fora do casamento, deveria ser a obediência e a submissão. Na prática do sexo, sempre com o objetivo único da procriação, a mulher não deveria demonstrar sensação de prazer, a posição deveria ser o homem sobre a mulher. Essa posição obrigatória da prática do sexo indicava a situação de submissão que dela se esperava. Cabia aos homens, pais ou maridos, o direito de castigá-las como uma criança, uma doméstica, uma escrava. Não era bom que uma mulher soubesse ler e escrever, a não ser que entrasse para a vida religiosa. Uma moça deveria isso sim, saber fiar e bordar exceto no caso de camponeses e classes mais baixas, que deveriam acompanhar seu marido no trabalho feudal.

Criou-se então uma pedagogia da salvação feminina a partir basicamente de três modelos femininos: Eva (a pecadora), Maria (o modelo de perfeição e santidade) e Maria Madalena (a pecadora arrependida). As doutrinas diferentes à religião católica pregavam que a mulher poderia ter os mesmos direitos que o homem, por isso eram, calorosamente, perseguidas pela Igreja. (do livro: ‘A mulher na idade média’ de José Reaver Macedo)



pensamentos sobre a mulher na idade média

‘Quem bate numa mulher com uma almofada, pensa aleijá-la e não lhe faz nada.’ (provérbio da época).

‘A alma de uma mulher e a alma de uma porca são quase o mesmo, ou seja, não valem grande coisa.’ (Arnaud Laufre).

‘Quando um homem for repreendido em público por uma mulher, cabe-lhe o direito de derrubá-la com um soco, desferir-lhe um pontapé e quebrar-lhe o nariz para que assim, desfigurada, não se deixe ver, envergonhada de sua face. E é bem merecido, por dirigir-se ao homem com maldade de linguajar ousado.’ (Tratado de conduta moral e costumes da França, século XIV)



pensamento sobre a mulher em 2007

Na sua opinião, uma mulher que é agredida pelo marido deve manter o casamento ou divorciar-se?
Depende do grau da agressão.

O que é isso do grau da agressão?
Há o indivíduo que bate na mulher todas as semanas e há o indivíduo que dá um soco na mulher de três em três anos.

Então reformulo a questão: agressões pontuais justificam um divórcio?
Eu, pelo menos, se estivesse na parte da mulher que tivesse um marido que a amava verdadeiramente no resto do tempo, achava que não.

(entrevista do Reitor do 'Santuário de Fátima', Luciano Guerra, concedida a um jornal português, em 13 de Outubro de 2007)



Temas relacionados:
a homossexualidade na antiguidade
deuses, filósofos, escravos e tiranos
a homossexualidade na grécia antiga
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a homossexualidade em roma
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homossexualidade na idade média

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

sistema e preconceito



sistema
Sentada numa cadeira onde estive sentada por dezenas de vezes, esperei o promotor entrar na sala de audiência. Sete anos aguardando pela Justiça, a Justiça tarda, mas não falha, não é o que dizem?
Talvez o juiz adie de novo - o promotor falou-me ao ouvido -, mas não desanime, hoje justiça será feita - e quando fui chamada para testemunhar, ele ainda cochichou: não complique, seja apenas sincera.
O advogado de defesa aproximou-se e falou-me com desdém: descreva o que aconteceu naquela noite.
- Fui estuprada.
- Detalhes, por favor.
- Prefiro não — respondi secamente.
- E por que não?
- Porque me é penoso...Difícil de lembrar.
- Difícil de lembrar?! Ele virou-se em direção ao juiz: excelência, esta mulher tem problemas de memória. Não é uma testemunha confiável. Peço que as acusações sejam retiradas e o processo arquivado.
- Não! - gritei - eu quis dizer que me é penoso de...
- Nada mais a perguntar! - falou o advogado - estou satisfeito.
- Mas...
- Retire-se - disse o juiz.
Voltei à minha cadeira de novo, lábios cerrados, rezando para que as lágrimas surgissem no meu rosto, mas os sete anos de espera me secaram, não os sete anos de constantes adiamentos e sim, sete anos tentando não esquecer, reviver tudo, o rosto cruel, as mãos calejadas, o cheiro do suor...
No saguão, o promotor aproximou-se com ar compungido: desculpe-me, mas você sabe como é.
- Como é o quê?
- O rapaz é de boa família, houve acordo e...
Agarrei minha bolsa, apertei-a junto ao peito como se quisesse esmagá-la. Como se fosse ela a culpada. (por dominique lotte)

preconceito
Quando Aída Curi foi currada,
estuprada,
violada,
morta por três homens,
ouvi gente puritana
dizer ainda: — "Bem feito!
Quem mandou ser leviana?"
(por leila míccollis)

aída curironaldo castro

Aída Curi, de 18 anos, recém saída de um colégio foi violentada e jogada de um prédio na Avenida Atlântica (Copacabana) em 1958, pelo porteiro Antônio João, por Ronaldo de Souza Castro e pelo menor Cássio Murilo. O homicídio teve repercussão nacional numa época em que muito se falava da juventude transviada de Copacabana, formada por jovens de classe média, poucos estudavam e nenhum deles trabalhava. Aída Cúri morreu duas vezes. A primeira quando os monstros a atiraram do alto do edifício e segunda quando o júri espezinhou a sua memória, absolvendo um criminoso da laia de Ronaldo Guilherme de Souza Castro. Na hora em que o Juiz pronunciou a sentença absolutória rapazes e moças bateram palmas, viram em Ronaldo o seu ídolo e o seu patrono. Em São Paulo, durante um baile, meninas e rapazes gritaram 'Ronaldo! Ronaldo!', no instante em que lá chegou a notícia de que o matador de Aída conseguira escapar às garras curtas da Justiça. (fonte:O Cruzeiro)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

homossexualidade: um caminho difícil para pais e filhos

Em geral não é fácil para os pais e filhos encarar a homossexualidade. Por mais que se proclamem despidas de preconceitos, as famílias relutam, num primeiro momento, em encarar a verdade.

Apesar de haver relatos da percepção homossexual muito precoce, já aos 5 ou 6 anos de idade, é na adolescência que ela se torna mais forte. Dependendo do ambiente em que circula, o jovem tende a se sentir encurralado pelo preconceito, pela culpa, pelo temor da rejeição e pela tortura de ter que esconder esse segredo da família e dos amigos. O sentimento de vergonha é muito comum. E quando, finalmente, consegue expor sua orientação sexual, em geral já está num processo avançado de auto-aceitação.

Quando os pais descobrem é natural que reajam mal. Além dos preconceitos sociais, começam a se defrontar com os estereótipos relacionados a esse grupo, percebem-se frustrados diante das próprias expectativas e, muitas vezes se perguntam: ‘onde foi que eu errei?’ A primeira defesa é negar o fato. E essa negação se materializa por meio de múltiplas reações. Diante do desespero, os pais chegam a ter atitudes até violentas, tanto físicas quanto emocionais.

Para os filhos, o sofrimento maior diz respeito à auto-aceitação, à dificuldade de carregar uma culpa por não ter sido capaz de cumprir expectativas familiares e sociais. Nessa fase, o risco maior é o do afastamento: as relações tornam-se superficiais, revestidas de segredos, mentiras e dissimulação, gerando um grande desconforto na dinâmica familiar.

A partir do momento em que o jogo de mentiras deixa de existir, reagir contra é a política menos construtiva. O mais importante é definir a conduta adequada, e acima de tudo, acolher com carinho, demonstrar amor e procurar aceitar. Abrir mão dos preconceitos. Tentar compartilhar com outros pais os sentimentos que está vivenciando e procurar desmistificar o universo gay, despindo-o de todo o folclore que o cerca.

O desejo homossexual é espontâneo e involuntário. Não se trata de escolher. Convença-se que ser homossexual não é ser ou estar doente e, principalmente, que isso não tem volta. Leia, informe-se.

(por celia svevo com a consultoria do psicólogo: klecius borges)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

pai! faça as pazes


Em algum lugar, há uma filha lésbica ou um filho gay que chora a distância de seu pai. Às vezes, diante da rejeição familiar, um dos caminhos é o exílio. É preciso sobreviver emocionalmente e tentar viabilizar uma identidade sexual sem mentiras nem pressões e, em muitos casos, sem violência. Lésbicas e gays fogem das cobranças de cumprir o script heterossexual, dos ataques dos pais, da lembrança constante de ser um fracasso em relação às expectativas do clã, das situações de vexame, escárnio e vergonha. Não é fácil ser a ‘ovelha negra’ ou a ‘lepra’ da família (termo banido, mas a sensação é essa).

Para os pais que se arrependem de ter repelido seus filhos devido à orientação sexual, há sempre a chance de repensar suas posições e buscar a reconquista da confiança. É preciso tentar entendê-los. Aproxime-se. Prove que suas atitudes mudaram. Expresse sua aceitação tardia. Livre-se das idéias de um mundo atrasado, ultrapassado e autoritário. Ninguém tem culpa de sentir qualquer tipo de desejo. Reprimir só gera monstros.

Não seja durão. Desprezar um filho ou uma filha que tenta ser autêntica e verdadeira não é a melhor dívida a se ter na vida. Primeiro, busque informação. Converse com outros pais. Seja humilde, reconheça suas limitações, mas deixe claro seu esforço em ser mais humanista. Drible a insistência no mundo das mensagens subliminares que perpetuam o ódio ao diferente.

Não precisa ser militante nem proclamar aos quatro ventos que sua filha é lésbica ou seu filho é gay. Não precisa nem participar de uma parada gay, embora essa experiência seja importante para se convencer do conceito ‘diversidade’. Por mais óbvio que seja, não há um único modelo ou embalagem de ser homossexual. No cotidiano, enfrente as dificuldades. A parceira dela ou parceiro dele pode ser de mais idade, ela pode ser masculinizada ou ele mais efeminado ou simplesmente uma vigarista ou um aproveitador. Mas não julgue nem interfira explicitamente. Não invada a privacidade. Não mexa nas suas coisas procurando provas. Não espione. Não force. Não encha de perguntas.

Ao ouvir pela primeira vez sua filha ou filho saindo do armário, não surte. Não torne as coisas mais dramáticas nem traumáticas. Não seja abusivo. Não reze. Não chore. Não marque uma consulta médica. Apenas abrace. Apenas beije. Não precisa de palavras. Apenas controle o seu pensamento e as suas ações na busca de respostas para estas questões: como posso manifestar meu apoio de pai? Como posso deixar claro que estarei ao seu lado e sempre a(o) defenderei? Como posso evitar magoá-la(o) emitindo algum sinal inconveniente ou ofensivo? Como posso me tornar superior ao senso comum dos preconceitos? Como posso explicitar o meu respeito a sua individualidade e ao seu direito de ser livre e feliz?

(sérgio ripardo)

terça-feira, 15 de julho de 2008

as dores provocadas pelo armário

‘ao avistar pedras recolhi-me em um armário, e mesmo solitária, escrevi uma história.’

O armário representa a proteção ou a repressão da sexualidade, das vontades sexuais e afetivas. O prazer sexual é, muitas vezes, reprimido devido à maquiada consciência religiosa que habita inúmeros mundos, em que o sexo e as relações homoafetivas são condenadas pela instituição igreja e por muitas famílias, onde a desinformação predomina entre as visões. 'É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito'. Infelizmente, após muitos valores terem sido transformados ao longo do tempo, concluímos que a frase de Albert Einsten continua atual, afinal ainda encontramos o preconceito em nossa sociedade. E tal aversão à diferença está presente em nós mesmos, embutidas em nossos valores pessoais, na nossa forma de observar. Muitas vezes avaliamos determinadas pessoas ou grupos observando somente um aspecto de sua vida, verdade e opinião.

‘com duvidosos sorrisos pensei ver a calmaria chegar, iluminei meus anseios, e entreguei a minha verdade aos porcos.’

Armário. O que poderia ser um artifício para o auto-conhecimento, em que evitamos prévios constrangimentos, acaba se tornando algo muito negativo para as pessoas com quem nos relacionamos, as quais não estão trancafiadas no escuro armário. Posso atribuir essa afirmação ao universo das transgêneros, que são encaradas, por muitos T-Lovers (homens que gostam de travestis e transexuais), como um objeto sexual.

‘foi no castelo de areia que colhi máscaras d’água, onde a sereia dos meus sonhos, se perdeu em um mar de prantos.’

Um reflexo disso pode ser observado no orkut, onde muitos homens mantém contato com travestis e transexuais através de perfis fakes (falsos), com fotos da genitália, de personalidades e desenhos. Em uma comunidade que aborda tal temática, ‘Jack Power’ afirma: “...existe uma coisa chamada coerção social. Não temos preconceito, acontece que precisamos de nos proteger. Muitos de nós trabalha em instituições que considera isso uma conduta incorreta, de falta de respeito, uma perversão e etc...”.

Agora imagine saber que a pessoa que amamos pensa isso sobre nós. Que a pessoa que amamos tem vergonha que as demais saibam que ela se relaciona conosco. Que a pessoa que amamos não teria coragem de ir até a esquina de mãos dadas. É claro que tal situação não é uma regra, já que inúmeras transgêneros desfrutam de bons e duradouros relacionamentos. Mas, a realidade de muitas travestis e transexuais, que além de sofrerem o abandono da família e amigos, sofrem com a negação parcial de seus amores. Como a travesti Camilla de Castro (foto), que cometeu suicídio após ter seus relacionamentos fechados em diversos e obscuros armários. Nascido Alessandro Kothenborger jogou-se, em 2005, da janela do seu apartamento, no centro de São Paulo, do alto do sétimo andar. Jogou-se nua às 5:30 da manhã.

'...quero um homem de verdade. não quero um homem que me chama de linda entre quatro paredes e depois não tem coragem de comprar pão de mãos dadas comigo. não sou apenas um sonho, um objeto...'

(texto de N. Lucon)