frase do dia: ‘a homofobia é mais uma constatação da perda da ternura no mundo, ser
preconceituoso com os LGBTs é retroceder; além de prejudicar o crescimento humano.’

(letícia spiller - atriz brasileira)

última atualização: 19/08/2009 20:36:42

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

filme: doubt

título no Brasil: 'dúvida'
gênero: drama
origem: EUA
ano de lançamento: 2008
direção: john patrick shanley
roteiro: john patrick shanley, baseado em sua própria peça teatral
elenco: meryl streep, philip seymour hoffman, amy adams, viola davis

Doubt

O filme é uma adaptação para a tela do livro que rendeu o prêmio Pulitzer ao dramaturgo John Patrick Shanley, que debate uma das questões mais dramáticas da atualidade, a pedofilia. Além de grandes atuações, o filme conta com um bom roteiro, cheio de sutilezas e surpresas. O filme se passa em 1964, um ano depois do assassinato do presidente John F. Kennedy. Dentro e fora dos EUA, esse início dos anos 60 era um momento de mudança. A igreja católica era varrida por novos ventos com um papa reformista, João 23. Fora dos conventos, o movimento pelos direitos civis acumulava algumas conquistas.

No bairro do Bronx, Nova York, a escola St. Nicholas, por exemplo, acaba de admitir seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster). E o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) aproveita essas situações cotidianas para desenvolver seus sermões dominicais, acompanhados sempre por uma igreja lotada de fiéis. A dúvida é tema de um sermão, a mesma dúvida que acompanha os personagens.

Não se trata, apenas, de um filme sobre os dramas internos da igreja católica. É sobre a grande batalha da história e ela tem a ver com sexo e pedofilia. Os personagens são: um padre carismático e progressista que está ciente do novo momento da igreja, a antipática e conservadora diretora e madre superiora, um triste aluno negro, sua mãe e uma jovem freira ingênua.

A trama gira em torno das suspeitas da jovem freira de que algo esteja ocorrendo entre o padre e o menino negro, o primeiro e único negro da escola. Uma série de acontecimentos leva a uma cascata de dúvidas. E dúvida é algo que a diretora da escola católica de St. Nicholas, madre Aloysius Beauvier (Meryl Streep), não se permite alimentar e assume como verdade que o padre mente. O que leva o padre a se demitir. Entretanto, não se tem nenhuma prova de que tenha ocorrido algo entre ele e o menino negro.

Tudo se complica quando a mãe deixa claro para a madre superiora que sabe que o filho é ‘diferente’, e que se o padre gosta dele e o está ajudando, e se ele, seu filho, se sente bem com isso, que ela não atrapalhe as chances que seu filho negro tem de ter um diploma de uma escola que abrirá portas em seu futuro. Por que não aproveitar um amor útil?

Numa das cenas mais bonitas do filme, quando conversa com a jovem freira romântica, o padre amoroso e sincero afirma que o mal da madre superiora é optar pela virtude em detrimento do amor. Pergunta ele: não é nossa missão acolher e gerar amor no mundo? São essas dúvidas em relação à fé e às atitudes dos personagens que movem os acontecimentos. A questão principal do filme não está relacionada aos fatos, mas sim em como as evidências são interpretadas tanto pelos personagens quanto pelo próprio público.


domingo, 21 de junho de 2009

filme: brüno

estréia dia 10 nos Estados Unidos e chega ao Brasil em 31 de julho

filme: brünoSacha Baron Cohen no filme: brüno

A nova comédia sarcástica do comediante britânico Sacha Baron Cohen que estreou nos EUA, anda causando polêmica até entre os ativistas gays. O nome do novo filme do criador de Ali G e Borat, o jornalista do Cazaquistão, é extenso: Brüno - Delicious Journeys Through America for the Purpose of Making Heterosexual Males Visibly Uncomfortable in the Presence of a Gay Foreigner in a Mesh T-Shir. Traduzido: Brüno - Deliciosas Jornadas Através da América pelo Propósito de Fazer Homens Heterossexuais Visivelmente Desconfortáveis na Presença de um Estrangeiro Gay numa Camiseta de Renda.

‘Brüno’ traz Baron Cohen como um jornalista austríaco gay que viaja aos Estados Unidos da América para cobrir o circuito de moda do país, e que no mesmo estilo de Borat, expõe a intolerância dos entrevistados, passando longe do humor politicamente correto. Mesmo antes da estréia mundial, o personagem provocou polêmica, principalmente na Áustria. Frases como ‘só quero viver o sonho austríaco de encontrar alguém, construir uma cave e começar uma família’, numa clara referência ao caso Josef Fritzl, o homem que manteve a filha Elisabeth, aprisionada em um porão durante 24 anos, levou imprensa austríaca a classificar o filme de ‘insultuoso’.

Sacha Baron CohenA divulgação do filme também produziu momentos curiosos: Bruno posou completamente nu para capa da revista GQ; e na última entrega de prêmios ‘MTV Movie Awards’, surgiu vestido apenas com uma tanga branca e umas asas de anjo, e aterrissou ‘de ré’ na cara do Eminem. O rapper deixou o local enfurecido. Na estréia do filme em Londres, horas antes do início do filme, Bruno desfilou pelas ruas londrinas vestido com roupas adaptadas da farda da guarda real britânica e acompanhado por uns esculturais homens igualmente fantasiados de guardas da rainha. Um dia depois, Sacha Baron Cohen apresentou o filme em Madrid. Bruno voltou a surpreender quando apareceu no evento vestido de touro acompanhado pelos respectivos toureiros.

Entre os ativistas gays existe uma divisão clara, uns acreditam nos efeitos positivos do filme contra a intolerância e outros enxergam que o novo personagem de Baron Cohen vai reforçar a homofobia. Entre os que defendem o filme está Aaron Hicklin, editor da revista ‘Out’, para ele, o filme tem a importante função de mostrar como a atitude das pessoas mudam quando descobrem que alguém é gay. Para Brad Luna, porta-voz da Campanha para os Direitos Humanos, tanto Baron Cohen como a distribuidora ‘Universal Picutres’ têm a responsabilidade de relembrar ao público de que o que está na tela foi feito para escancarar a homofobia. Não é a primeira vez que o ator de 37 anos é motivo de controvérsia, e de processos, sobretudo depois de seu personagem mais famoso, Borat.


sábado, 23 de maio de 2009

filme: omaret yakobean

título no Brasil: 'o edifício yacoubian'
gênero: drama
origem: egito
ano de lançamento: 2006
direção: marwan hamed
roteiro: wahid hamid, baseado em livro de alaa' al-aswany
elenco: adel imam, nour el-sherif, hend sabri, khaled el sawy, bassem samra

O Edifício Yacoubian - filme

Alaa' Al-Aswany, dentista do Cairo, Egito, um dia teve um consultório no Edifício Yacoubian. O que viu, as pessoas com quem conviveu, e a sua imaginação, originaram aquele que veio a se tornar o livro mais vendido em língua árabe. Publicado em 2002, o livro transformou-se em filme. A sociedade árabe, mais especificamente a egípcia, foi retratada em suas faces mais obscuras pelo diretor egípcio Marwan Hamed, na época com 29 anos.

Na cultura egípcia não existe a amizade entre homem e mulher, o homem tem mãe, irmã, filha, mas não tem amigas. Casais não andam de mãos dadas nas ruas, seria afeto demais. Mas, homens andam de braços dados e são carinhosos com seus amigos. A figura feminina, principalmente a da mãe, é importantíssima e respeitada, mas é também onde uma mulher que se atreve a caminhar na rua sem usar o hijab, o tradicional véu, corre o risco de levar pedradas na cabeça.

Edifício Yacoubian, no CairoO Yacoubian é um dos prédios mais antigos e interessantes do Cairo, e é ele que o diretor usa para tratar de temas tabus em seu país, como sexo, drogas, homossexualidade, tortura e aborto. O filme bateu recordes de público e causou a ira dos políticos, que quiseram censurar as cenas em que um respeitado jornalista se relaciona com um soldado. No prólogo, é contada a história do prédio, construído em 1934 por Hagop Yacoubian, um rico negociante armênio, e que abrigou as famílias abastadas e depois, no tempo de Nasser, muitos militares.

É nesse ambiente que circulam personagens interessantes: o idoso engenheiro Zaki El Dessouki (Adel Imam) um playboy decadente que divide o apartamento com uma irmã que é uma víbora e parece ansiosa em se livrar dele. Hajj Muhammad Azzam (Nour El-Sherif), engraxate na juventude que transformou-se em poderoso homem de negócios, que sob a capa de uma religiosidade impecável alcança, à custa do tráfico de droga, a situação de milionário e a respeitável posição de deputado. Buthayna Al Sayyed (Hend Sabri), uma jovem pobre que para sustentar a família aceita manter uma relação sexual com o patrão, desde que, a conselho da mãe, conserve a virgindade. Hatem Rachid (Khaled El Sawy) famoso jornalista homossexual iniciado no sexo ainda muito jovem por um criado núbio, e que é amante de Abd Raboh (Bassem Samra), um soldado casado e vítima dos preconceitos morais da sociedade. Quando, inesperadamente, morre o seu filho, a esposa, que não ignora a sua relação homossexual com o jornalista, faz com que ele creia que a morte da criança é o castigo de Deus pelos seus pecados.

No livro de Al Aswani, é o soldado Raboh que mata o jornalista seu amante, mas no filme foi um rapaz desconhecido que é levado para sua casa num instante de desespero. Enfim, o autor do livro e o diretor do filme afrontaram os principais tabus da sociedade egípcia: a corrupção e o oportunismo, o fundamentalismo religioso, o terrorismo e a repressão policial, a hipocrisia moral e religiosa, a intolerância e a ignorância. Os desencantos de qualquer sociedade.





Clique no banner abaixo e apóie a aprovação do PLC 122/06. Em menos de 1 minuto, você assina o abaixo-assinado, envia seu voto para os 81 senadores e ainda indica a Campanha para seus amigos.

não homofobia

sábado, 25 de abril de 2009

filme: the bostonians

título no Brasil: 'os bostonianos'
gênero: drama
origem: EUA
ano de lançamento: 1984
direção: james ivory
roteiro: ruth prawer jhabvala
elenco: christopher reeve, vanessa redgrave, madeleine potter, jessica tandy, wesley addy, barbara bryne, linda hunt, martha farrar, nancy new
indicações: indicado aos Oscars de melhor atriz (vanessa redgrave) e de melhor figurino, vanessa redgrave também indicada ao 'Globo de Ouro'

the bostonians

‘The Bostonians’ é adaptação de um livro de 1896, escrito pelo norteamericano Henry James, autor dos mais difíceis da língua inglesa, um desafio para os cineastas e que tem várias adaptações de suas novelas e romances. Publicado há mais de cem anos, ‘The Bostonians’ transformou-se em um filme propositalmente lento, embora visualmente belíssimo, e que exige um mergulho num universo sufocante, como a própria sociedade que a obra retrata, cuja história gira em torno de duas mulheres ligadas ao movimento feminista pós Guerra Civil americana. Há um século, Henry James já discutia a questão da liberação da mulher, na criação de um triângulo audacioso para a época, o domínio que uma mulher de grande carisma, Olive Chancellor (Vanessa Redgrave), exerce sobre uma jovem talentosa, Verena Tarrant (Madeleine Potter), mas desejada também por Basil Ransome (Christopher Reeve) e, primo de Olive, um advogado de idéias conservadoras e radicalmente contrário ao movimento feminista.

Realizado pelo cineasta James Ivory, o filme conta com um excelente roteiro, escrito por Ruth Prawer Jhabvala, e com excepcionais interpretações de Vanessa Redgrave e Jessica Tandy. Para Christopher Reeves, marcado com o estigma de ‘Superman’, o papel do angustiado Basil Ransome foi a chance de provar suas qualidades de ator.

Mas é na relação entre Olive (Vanessa Redgrave) e Verena (Madeleine Potter) que gira a história de Henry James. De um lado, a mulher experiente, lésbica e feminista que vê na jovem, pura e talentosa adolescente, dominada primeiro pelo pai charlatão, que recebe ‘mensagens do além’, e depois, passa a servir a um movimento feminista. Verena é primaveril, suave e extremamente feminina, enquanto Olive é quase o oposto, dura e tremendamente forte, vivida de forma expecional por Vanessa Redgrave que, merecidamente, obteve as indicações aos prêmios.

Apesar de difícil para aqueles que gostam de muita ação e agilidade, 'The Bostonians’ é um filme sério, profundo e requintado, que analisa a literatura, o feminismo, as relações absorventes entre as mulheres, o comportamento das primeiras sufragistas bostonianas e, especialmente, a liderança de uma lésbica no movimento feminista. Enfim, é uma obra de arte, inteligente, e merecedora de atenção de quem sabe apreciar filmes de qualidade. ‘The Bostonians' conta, ainda, com uma ótima trilha sonora.

terça-feira, 14 de abril de 2009

you are glasses

‘Grey's Anatomy’ também é um drama médico norte-americano, não tão bom quanto E.R. criado pelo famoso escritor e ex-médico Michael Crichton, mas também mostra o cotidiano, os conflitos amorosos e as dificuldades dos médicos e enfermeiras que trabalham num rígido hospital fictício em Seattle, Washington. Vencedor do Globo de Ouro como melhor série de TV (drama), ‘Grey's Anatomy’ é adorado pelo público e pela crítica.

Laura Innes No seriado E.R. tivemos, por 13 anos, a atriz Laura Innes no papel de Kerry Weaver, uma médica que ocupava a diretoria do hospital e era lésbica. Em ‘Grey's Anatomy’, além de ter o ator T.R. Knight que é gay assumido e interpreta o inseguro médico hétero e recém-formado George O'Malley, um outro ator, Isaiah Washington que interpretava o Dr. Burke, foi demitido do seriado, por ser uma estrela temperamental, e a gota d’água aconteceu quando ele brigou com Patrick Dempsey, que também atua no seriado, após ter xingado o ator T.R. Knight de 'bichinha' durante as gravações e repetir a ofensa durante a premiação do Globo de Ouro. Mais tarde, o ator desmentiu que esteja fazendo tratamento contra a homofobia. O ex-astro avisou que 'não existe reabilitação para isso'.

T.R. KnighIsaiah WashingtonAgora existe um relacionamento entre a cardiologista Erica Hahn (a loira) e a ortopedista Callie Torres que foi casada com Georfe O’Malley e foi traída por ele. A criadora do programa, Shonda Rhimes, quis mostrar como é descobrir a homossexualidade depois de uma certa idade. É bem diferente de como dizer que é gay aos 19 anos. Sem nenhuma experiência prévia, as duas vivem dia-a-dia novos momentos juntas. E há brigas também. Callie entra em crise ao achar que não é lésbica.

Já li que as fãs do novo casal não devem comemorar. O relacionamento entre elas vai durar pouco. Há muitos boatos sobre o motivo do afastamento, um deles é que os executivos do canal em que Grey's é exibido nos EUA, não gostaram da personagem Erica Hahn. Seja lá qual for o motivo, fica aqui registrada, a declaração que Erica faz para Callie.



- Toda a minha vida... Toda a minha vida adulta, eu tenho ficado com homens. E sempre foi, você sabe... Gostoso, legal, mas eu nunca... Quer dizer... Eu fazia, mas não... Não assim. É como precisar de óculos.
- Hum? Eu ceguei você?
- Não. Quando eu era criança, eu tinha essas dores de cabeça, e fui ao médico. Eles disseram que eu precisava de óculos. Eu não entendia aquilo. Não fazia sentido pra mim porque eu podia ver bem. E então eu pego os óculos, ponho no rosto, estou no carro indo pra casa e de repente eu grito. Porque os grandes borrões verdes que eu tinha observado a minha vida inteira não eram grandes borrões verdes. Eram folhas, nas árvores. Eu podia ver as folhas. E eu nem mesmo sabia que eu estava perdendo as folhas. Eu nem mesmo sabia que folhas existiam, e então... Folhas! Você... Você são óculos. Eu sou gay. Eu sou muito, muito, muito gay! Sou extremamente gay!


(tradução livre de João Marinho do blog gospel LGBT )

e este clipe foi um achado do zuza
obrigada amigo

terça-feira, 31 de março de 2009

mulheres e o cinema

Engana-se quem pensa que na indústria cinematográfica o papel da mulher limitou-se apenas ao estrelato ou ao de escritora-roteirista. E que, somente recentemente, é notória a presença do ‘sexo frágil’ na direção e na produção da sétima arte, como no caso de Sofia Coppola, cineasta estadunidense, filha do também cineasta Francis Ford Coppola e prima do ator Nicolas Cage; ou Lucia Puenzo, diretora e roteirista argentina do seu primeiro filme XXY, citado no post anterior ou ainda, as brasileiras Tizuka Iamazaki e Carla Camurati.

Surpreendentemente, até 1920, na época do cinema mudo, existiram mais diretoras, produtoras e proprietárias de estúdio que em qualquer outra época na história do cinema, inclusive nos dias de hoje. A maioria dos atores eram mulheres, algumas delas com as suas próprias produtoras de filmes. E com mais da metade de escritores-roteiristas sendo mulheres, pode-se dizer que elas controlaram a indústria de filmes.


É quase inexistente material bibliográfico sobre este assunto. Diretoras e produtoras menos conhecidas nessa época são apenas citadas. Nomes como: Nell Shipman, Elizabeth Pickett, Marguerite Bertsch, Lule Warrenton, Ruth Stonehouse, Margery Wilson, Ida May Park. Outras, consideradas mais importantes, são citadas em material considerável. São elas: Alice Guy-Blaché, Lois Weber, Dorothy Arzner, Ida Lupino e a roteirista Francis Marion.

Alice Guy-Blaché

Alice Guy-Blaché, foi uma das principais representantes desse período. Francesa, foi a primeira diretora de filmes da história, que chegou a dirigir, produzir e/ou supervisionar cerca de 300 filmes em sua vida. Ela aparece também, causando controvérsias, como a verdadeira criadora da narrativa para o cinema. Não teríamos então Georges Méliès como o pai da narrativa no cinema, e sim Alice Guy, já que seu primeiro filme ‘La Fee aux Choux’ de 1896, foi realizado alguns meses antes do filme de Méliès. Alice Guy começou sua carreira no cinema quase que ao acaso. No final do século XIX, trabalhando como secretária, depois passou a produzir pequenos filmes.

Lois Weber Lois Weber foi outra figura feminina no cinema, foi uma das muitas diretoras empregadas pela ‘Universal’ nos clássicos anos de Hollywood de 1910 e 1920. Lois Weber foi a primeira mulher a produzir, dirigir, estrelar e co-escrever um filme de um grande estúdio. Chegou, em alguns anos, a ser ‘o diretor’ mais bem pago no cinema mudo. Weber estava totalmente convencida que o cinema era um instrumento para o aprimoramento da moral e cidadania, uma das poucas verdadeiramente idealistas no cinema.

Seus filmes eram focados nos problemas sociais que a mulher e a sociedade enfrentavam na época. Aborto, controle de natalidade, racismo, pena de morte, prostituição e promiscuidade eram tratados por ela com firmeza em face das inevitáveis controvérsias inflamadas por seus filmes. Assim, Weber prosseguia com seus ‘filmes missionários’, como ela própria os chamava, e conseguia sucesso, sem exploração. Mas no começo dos anos 20, os filmes de Weber começaram a fracassar nas bilheterias. Terminou sua carreira trabalhando como consultora de roteiros para a Universal na década de 30.

Dorothy ArznerDorothy Arzner, já homenageada por mim (saiba mais sobre ela clicando aqui), foi única mulher, e assumidamente lésbica, a trabalhar como diretora nos tempos áureos dos grandes estúdios. Dorothy Arzner começou sua carreira em 1922, inicialmente como montadora, passando logo a roteirista e, enfim, diretora. Dirigiu aproximadamente 18 filmes, entre 1927 e 1943. Dorothy Arzner, além de ter introduzido o microfone boom (o de teto), em seu último filme, de 1943, fez propaganda anti-nazista. Conseguiu com muita dificuldade manter-se na indústria, numa época onde só homens trabalhavam como diretores.

Francis Marion Francis Marion foi uma das maiores escritoras-roteiristas de Hollywood que entre as décadas de 10 a 50, escreveu pelo menos 136 roteiros que chegaram a ser produzidos, passando sem esforço pela transição do cinema mudo para o falado. Esses números se comparados com os atuais, mostram que hoje em dia é uma raridade encontrar roteiristas com pelo menos dez roteiros de filmes produzidos e finalizados. Marion iniciou sua carreira de roteirista em 1916 em uma produção com Mary Pickford que torna-se sua companheira de filmes. Marion trabalhou com quase todos os principais diretores do cinema mudo, além de escrever filmes para as principais estrelas da época. Muitos dos filmes de Marion eram de gangsters e tiroteios, a antítese dos '’filmes de mulheres’. Talvez essa fosse a receita de seu sucesso nos grandes estúdios onde conseguiu manter-se durante um bom tempo.

Ida LupinoIda Lupino foi uma das mais produtivas diretoras de todos os tempos. Entre 1949 e 1954, dirigiu seis filmes em sua própria companhia, enquanto atuava em outros sete filmes dirigidos por outros. Como a pioneira Lois Weber, Lupino usava assuntos polêmicos, de consciência social que resultavam em temas para seus filmes como: estupros, bigamia, paralisia infantil, mães solteiras. Mas, diferentemente de Weber, Lupino era antes de tudo uma ‘entertainer’ e não uma pregadora. E por trabalhar também como atriz, Lupino sabia atuar, literalmente, do outro lado. Depois de 1954, Ida Lupino trabalhou somente em seriados de televisão, seja como diretora, produtora ou atriz. Seriados como ‘O Fugitivo’, ‘Perdidos no Espaço’, ‘Os Intocáveis’, entre muitos outros passaram por suas mãos e, não leve um susto, se ao rever alguns clássicos da TV, como ‘Batman’ ou ‘As Panteras’, a convidada especial for Ida Lupino.



Temas relacionados:
dorothy arzner

domingo, 29 de março de 2009

filme: XXY

título no Brasil: 'XXY'
gênero: drama
origem: argentina/frança/espanha
ano de lançamento: 2007
direção: lucía puenzo
roteiro: lucía puenzo, baseado em estória de sergio bizzio
elenco: ricardo darín, inés efron, martín piroyansky

filme XXY

Em seu primeiro longa-metragem, a diretora argentina Lucía Puenzo, filha do cineasta Luis Puenzo, encarou o desafio de tratar de um tema ausente do cinema. Como o título sugere, XXY aborda de um modo bastante delicado e poético a história de Alex, uma adolescente hermafrodita e de seus conflitos de identidade e também do preconceito da população da pequena cidade pesqueira onde vive.

O filme foi criticado por médicos, pois o título é totalmente enganador. Na medicina, XXY é relacionada à Síndrome de Klinefelter, que não é ligada a distúrbios de função ou identidade sexual, o que é muito diferente da ambigüidade genital. A Síndrome de Klinefelter é uma anomalia cromossômica que causa esterilidade.

Opondo-se a um discurso racional e científico, Lucía Puenzo não teve a menor intenção de construir uma obra de denúncia social ou de defesa das minorias. Ela preferiu basear-se sempre em metáforas e alusões. Nunca se fala em ‘hermafroditismo’, mas faz-se referências: ‘eu tenho os dois’, diz Alex a um amigo; enquanto as bonecas na sua prateleira têm pênis postiços feitos de cigarros.

Não se aborda o assunto de frente. Quando alguém menciona sexualidade perto de Alex, ela se levanta e vai embora, revoltada, de onde conclui-se que ela não quer ouvir falar de escolhas sexuais nem cirurgias reparatórias, e o filme também não. Mas, não há uma cena sequer que não esteja relacionada à sexualidade, e as simbologias estão sempre presentes para garantir as alusões.

A mãe de Alex é a mulher que investiga sobre cirurgiões especializados em reconstruções do sexo enquanto, na cozinha de casa, ela pica uma cenoura, num claro símbolo fálico, e corta acidentalmente o dedo numa referência à mutilação genital. O pai de Alex é um biólogo e numa cena ele aparece operando uma tartaruga que perdeu uma barbatana, mais uma vez, a alusão clara à mutilação. Incapaz de discernir qual a decisão correta que sua filha deveria seguir, sofre com as dificuldades da filha, ainda assim respeitando-a e protegendo-a seu modo.

XXY é um filme sobre hermafroditismo, e não sobre uma hermafrodita. Não se sabe o que Alex pensa, quais seus gostos e desgostos, seus planos, suas atividades. Sabe-se unicamente de sua anatomia singular.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

filme: milk - a voz da igualdade

A cerimônia do 81º Oscar aconteceu neste domingo 22/02/2009. ‘Milk - A Voz da Igualdade’ recebeu oito indicações. Sean Penn ganhou o de melhor ator por sua interpretação como ativista gay.

Milk - A Voz da Igualdade

O filme do diretor Gus Van Sant (também gay), não conta apenas a história do ativista gay Harvey Milk (1930 – 1978), o primeiro militante gay a ser eleito para um cargo político nos EUA, como também retrata a luta dos homossexuais contra a política de represálias que se formou na década de 70, na cidade de São Francisco (EUA).

Na data de seu aniversário, Harvey (Sean Penn) comemora ao lado de seu novo namorado Scott (James Franco), mas sente-se um pouco frustrado por ter acabado de completar 40 anos e ainda não ter feito nada, em sua percepção, de relevante na vida. Neste dia, o quarentão ainda não sabia que, dali a algum tempo, seu próximo aniversário seria com uma grande festa no bairro de Castro. Afinal, Harvey Milk se tornaria o primeiro político assumidamente gay de São Francisco.

Tal conquista não foi tão fácil. Assim como hoje, as bancadas religiosas tentam barrar a aprovação do PLC 122, que criminaliza a homofobia no Brasil, Harvey, em 1972, lutava pela igualdade de gays e lésbicas. Pelo direito de ir e vir, e de pertencer a uma sociedade que, em sua maioria, era formada por conservadores e fundamentalistas que defendiam ‘a base da união familiar com um homem e uma mulher’.

‘Pagamos impostos para sermos protegidos e não perseguidos’, dizia Milk em um de seus discursos. Nesta época, gays andavam pelas ruas de Castro com apitos pendurados no pescoço ou dentro dos bolsos para caso fossem ‘repreendidos’ pela polícia, terem como se defender 'apitando' por ajuda. Nos dias atuais, fica clara a idéia de que não haverá, tão cedo, um candidato como Milk. O ativista não lutava por uma causa, ele fazia parte dela. Eis a diferença. O filme traz ainda a reflexão de que, se hoje homens e mulheres podem caminhar de mãos dadas com uma pessoa do mesmo sexo na rua é porque muitos já sofreram, 'apitaram', e lutaram para que isso fosse possível.

‘Milk - A voz da Igualdade’ nos mostra que para superar os obstáculos impostos à comunidade gay falta, principalmente, alguém que tome a frente, e grite algo parecido com: ‘meu nome é Harvey Milk, e estou aqui para recrutá-los’.


Marco Ribeiro, o dublador de Sean Penn no Brasil, se recusou a fazer a voz do ator no filme ‘Milk- A Voz da Igualdade’. ‘Não me sentia à vontade para fazer o filme’, afirmou Ribeiro, 38, que é também pastor evangélico (tinha que ser!). ‘Não tive vontade porque tenho a voz envolvida com outras questões, assim como não faço determinados comerciais’. 'Não é que ele tenha algo contra homossexuais, é que as pessoas ao seu redor confundem sua profissão de ator com o lado religioso', assim justificou Marlene Costa, 55, diretora de dublagem de ‘Milk’. Marco Ribeiro foi substituído pelo ator Alexandre Moreno.




(por Diana C.)

sábado, 31 de janeiro de 2009

drags, travestis e transexuais: quem é quem no cinema

The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert

Drag queens e drag kings são pessoas homossexuais que usam nomes chamativos, fantasias extravagantes e maquiagem exagerada para se apresentar profissionalmente como caricaturas do sexo oposto, em shows de dublagem geralmente seguidos de conversas engraçadas com o público. No sucesso australiano de 1994 ‘The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert’ To Wog Foo, Thanks For Everything, Julie Newmar(Priscilla, A Rainha do Deserto), de Stephan Elliot, Anthony e Adam são drag queens que cruzam o deserto ao lado da amiga transexual Bernadette. A versão americana do filme, realizado em 1995, tem um nome igualmente comprido, mas seus personagens não são tão corretos; em ‘To Wog Foo, Thanks For Everything, Julie Newmar’ (Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo, Julie Newmar), de Beeban Kidron, os personagens apresentados como drag queens usam nomes femininos, fantasias e maquiagem 24 horas por dia, o que descaracteriza a denominação.

Victor/VictoriaTransformistas também são pessoas que se vestem como alguém do sexo oposto para uma apresentação artística. Mas, ao contrário das drags, eles não usam nomes extravagantes nem fantasias exageradas. Em 1982, Julie Andrews foi indicada ao Oscar pelo seu papel em ‘Victor/Victoria’ (Vítor ou Vitória) de Blake Edwards, em que interpretou uma cantora que se faz passar por um homem transformista que se faz passar por uma mulher. Complicado? Então tome cuidado para não confundir transformistas com cross-dressers.

Glen or GlendaEnquanto os transformistas se apresentam em manifestações artísticas, os cross-dressers são pessoas que gostam de vestir roupas do sexo oposto em ocasiões pessoais. Em 1994, Tim Burton realizou ‘Ed Wood’, cinebiografia do diretor famoso por ser o pior de todos os tempos. Uma das cenas mostra a filmagem de ‘Glen or Glenda’, primeira obra rodada por Wood e que conta a história de um homem que não sabe como contar à esposa que deseja vestir as roupas dela. O ano era 1953, e o personagem Glen foi interpretado pelo próprio Wood, que na vida real gostava de usar roupas da namorada. Os cross-dressers também foram muito bem representados pelo veterano Danny Aiello, cujo personagem veste conjuntinhos Channel para tomar chá com a namorada no filme ‘Prêt-a-Porter’ (1994), de Robert Altman.

Ma Vie en RoseConsiderado por muitos críticos como o melhor diretor americano, Altman é responsável também por um ótimo personagem transexual no surpreendente filme ‘Come Back to the Five and Dime Jimmy Dean’ (James Dean, O Mito Sobrevive) de 1982. Transexual é alguém cuja verdadeira identidade está em desacordo com o sexo com o qual nasceu. Tanto que os médicos já chamam o procedimento cirúrgico não mais de ‘mudança’ de sexo, mas sim de adequação, atestando o real conflito físico entre corpo e alma.

Boys Don't CryNo comovente filme de 1997 ‘Ma Vie en Rose’ (Minha Vida Em Cor-De-Rosa) de Alain Berliner, um garoto de sete anos de idade não compreende porque seu corpo físico não reflete que ele é na verdade uma menina. Depois de uma curta e mal-sucedida carreira no seriado ‘Beverly Hills, 90210’ (Barrados no Baile), Hilary Swank ganhou o Oscar e o Golden Globe por interpretar Tenna Brandon, uma garota transexual que vai para uma cidade do interior e, mesmo antes de passar pelo processo cirúrgico de adequação, passa a viver como homem. A comovente história de Teena, filmado em 2000, rendeu ainda mais de trinta prêmios para o filme ‘Boys Don't Cry’ (Meninos Não Choram), de Kimberly Peirce.

The Crying GameEnquanto os transexuais são pessoas que não se identificam com seu sexo biológico e procuram alterá-lo cirurgicamente, os travestis são pessoas homossexuais que se apresentam como pertencentes ao sexo oposto, mas sem rejeitar seus órgãos genitais. Ganhador do Oscar e do Golden Globe de melhor filme estrangeiro de 1999, ‘Todo Sobre Mi Madre’ (Tudo Sobre Minha Mãe), de Pedro Almodóvar, mostra um caminhoneiro que se torna travesti, coloca seios de silicone e passa a apresentar-se como mulher, porém, mantendo seus órgãos sexuais masculinos. Outro exemplo é um dos personagens de ‘The Crying Game’ (Traídos Pelo Desejo), de Neil Jordan, ganhador do Oscar de melhor roteiro em 1992. (fonte: the gay & lesbian review)

’Posso não ser o que faz você feliz. Mas isso não quer dizer que sou uma pessoa má. Abra seu coração e olhe para mim. Nascemos assim, não temos escolha. Aceite-me como sou. Tudo o que peço é aceitação. Você não precisa me odiar. Nem precisa me amar. Seja como for, eu aceito. Dê-me uma chance, é só o que peço. Quem sabe você descobrirá que meu coração não é diferente do seu.’ (marcos alexandre)






selo que ganhei da verônica
do blog akira yannes

Obrigada querida...

domingo, 11 de janeiro de 2009

filme: the boys in the band

título no Brasil: 'os rapazes da banda'
gênero: comédia-drama
origem: EUA
ano de lançamento: 1970
direção: william friedkin
roteiro: mart crowley, adaptado da peça teatral 'off-Broadway' de sua própria autoria
elenco: kenneth nelson, peter white, leonard frey, cliff Gorman, frederick combs, laurence luckinbill, keith prentice, robert la tourneaux, reuben greene e maud adams

the boys in the band

As conquistas sexuais dos anos 70 trouxeram benefícios aos gays retratados nas telas dos cinemas. Nesse sentido, o polêmico ‘The Boys in the Band’, dirigido por William Friedkin em 1970, mostrou com completa clareza, personagens abertamente homossexuais e envolvidos romanticamente entre si.

É um filme curioso e desafiador na carreira de William Friedkin, o mesmo de ‘Operação França’ e ‘O Exorcista’. Comédia-dramática das mais brilhantes. Com roteiro de Mart Crowley baseado na peça original ‘off-Broadway’ (1968) do próprio Crowley, narra com humor, inteligência, sarcasmo e ácidas emoções, a comemoração do aniversário de um dos oito amigos que se reúnem numa chuvosa noite de uma Nova York pré-Stonewall e que conta com uma inesperada visita de um amigo careta do dono da casa, em crise no casamento.

the boys in the bandMart Crowley, autor de uma peça só, não conheço qualquer outro trabalho de sua autoria, bem como dados a seu respeito, que cuidou também do roteiro e da produção (o elenco inteiro é o original da peça), foi profundamente feliz no enfoque que deu a longa noite de solidão, agressão e confissão de um grupo de homossexuais. ‘The Boys in the Band’ é um filme que faz rir, mas que, pouco a pouco, vai conscientizando o espectador da solidão, do desespero, do mundo cinzento que envolve os homossexuais.

Amargo, incisivo como uma navalha, os diálogos de Crowley vão abrindo o coração dos rapazes da banda para o espectador. Pela primeira vez no cinema, os gays são vistos como pessoas comuns, em seus bons e maus momentos, e não como figuras ridículas, caricatas ou predatórias, e nenhum deles se mata no final por culpa.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

homenagem a uma lésbica: alice walker

alice walker

Alice Malsenior Walker, escritora e feminista sempre foi uma ativista pelos direitos dos negros e das mulheres, destacando-se na luta contra o ‘apartheid’ e contra a mutilação genital feminina em países africanos. De origem africana, filha de agricultores nasceu na Geórgia em 1944, iniciou sua carreira de escritora com ‘Once’, um volume de poesias. Escreveu também o livro ‘De amor de desespero’, uma coletânea de vários contos, uma obra composta pelas vozes de várias mulheres negras do sul dos EUA, mulheres diferentes com seus temores, desafios e sonhos. Mas Alice Walker alcançou fama mundial com ‘The Color Purple’, premiado com o ‘Pulitzer’, e dando origem a um dos mais belos filmes de Steven Spielberg, com a atriz Whoopi Goldberg no papel principal e traduzido no Brasil como ‘A Cor Púrpura’. Em 2006, Alice falou de sua relação amorosa com a cantora Tracy Chapman durante uma entrevista para o ‘The Guardian’.

The Color PurpleUm dos assuntos recorrentes nos trabalhos de Alice Walker é a insistência em buscar a verdade nas relações entre luta e mudança na dolorosa vida das pessoas negras, motivo de protesto da escritora, principalmente das negras. A forma da narrativa de ‘The Color Purple’, é epistolar, técnica literária que consiste em desenvolver a história principalmente através de cartas, que era o modo de expressão mais utilizado no Oeste. As feministas históricas acreditavam que elas eram as principais fontes de informações objetivas e subjetivas dos fatos da vida diária das mulheres e enfatizavam a opressão das mulheres negras vividas nas suas relações com os homens negros (pais, irmãos, maridos, amantes) e a solidariedade mútua que precisavam ter para se auto-libertarem. Alice aborda o proibido na narrativa em tela, focalizando o incesto e retrata a relação lésbica como natural e livre.

The Color PurpleO período histórico retratado é um ano antes de 1920 e depois do final da escravidão nos Estados Unidos, que ocorreu oficialmente em 1865. Na obra, Alice Walker constrói com sensibilidade e talento, sua maior personagem: Celie, uma mulher negra sulista, com apenas 14 anos, quase analfabeta, que vive em uma realidade dura de pobreza, opressão e desamor e que escreve cartas para Deus, única forma de manter a sanidade e de expressar seus sentimentos e observações sobre a vida. Celie não era considerada como pessoa, mas sim tratada como objeto. O padrasto, que a violentou, e o marido acabaram com sua auto-estima, relembrando-a sempre que era apenas uma pobre e feia mulher negra, nada mais que isso. Cellie representa todas as mulheres que vivem na sombra de maridos dominadores. É uma alma cheia de anseios e sentimentos que luta com suas armas sutis para manter a sua dignidade.

Os homens são opressores brutais, inimigos. Shug Avery, uma sensual cantora de blues e Celie se apaixonam. Desde que aprende a amar a si mesma, ama os outros e Celie descobre a sexualidade através da relação lésbica com Shug Avery e parte com ela para Memphis, libertando-se da escravidão e abusos que o marido lhe infligia. Para Celie, essa relação é a única escolha e inicia uma vida nova e constrói sua identidade como ser humano, como mulher. O amor por outra mulher abre um espaço para a realização pessoal e sexual da mulher no qual a identificação com outro ser igual possibilita a auto-integração do sujeito feminino.

(fonte: 'Celie e Shug, duas mulheres além de seu tempo'
por Sônia Maria Zanetti Thomaz)



A canção ‘Miss Celie's Blues’ é o grande e enternecedor tema, na voz poderosa de Tata Vega, excelente cantora de blues. ‘Miss Celie's Blues’ é a confissão do amor de uma mulher por outra.


sábado, 8 de novembro de 2008

filme: bent

título no Brasil: 'bent'
gênero: drama
origem: Inglaterra
ano de lançamento: 1997
direção: Sean Mathias
roteiro: Martin Sherman, baseado em sua peça teatral
elenco: Clive Owen, Brian Webber, Lothaire Bluteau, Ian McKellen, Jude Law e Mick Jagger.
premiação: recebeu o prêmio de melhor ator (Lothaire Blutheau), no festival de Gijón
curiosidade: Ian McKellen, que interpreta o tio Freddie, interpretou o protagonista Max na versão de 'Bent' exibida nos teatros de Londres em 1979

bent

Adaptação para o cinema da famosa peça de Martin Sherman sobre a vida dos homossexuais na época áurea do nazismo. No centro de tudo, o drama de Max (Clive Owen) que vive na cidade de Berlim dos anos 30. Depois de participar de uma festa gay na boate da trans Greta (Mick Jagger), é perseguido por nazistas. Ele e Rudi (Brian Webber) são amantes e tentam escapar da perseguição de Hitler fugindo para o interior em busca da ajuda de amigos e parentes. Logo, no entanto, são presos e levados para o campo de concentração de Dachau. No trem que os transporta para a prisão, eles são torturados pelos guardas e Rudi é assassinado. Chegando ao campo, Max tenta esconder que é homossexual pois, prisioneiros que se revelavam gays eram massacrados pelos guardas e pelos próprios companheiros de prisão, mostrando o triângulo amarelo no peito, que marcava os judeus. Durante os trabalhos forçados conhece Horst (Lothaire Bluteau), outro homossexual, e que traz no uniforme o triângulo rosa, maneira como os nazistas identificam os homossexuais, e os dois se apaixonam. Aos poucos, Max se conscientiza politicamente e passa a usar o triângulo rosa no peito, resultado da relação cada vez mais forte com Horst. É um filme poético e triste. A cena em que Max e Horst fazem amor sem se tocar é belíssima. O filme é um cult.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

filme: a jihad for love

título no Brasil: 'jihad do amor'
gênero: documentário
origem: EUA/reino unido/austrália/alemanha/frança
ano de lançamento: 2007
direção: parvez sharma
produção: sandi simcha dubowski

jihad for lovejihad for love

O diretor Parvez Sharma nasceu na Índia, é gay e muçulmano. Os protagonistas do documentário são muçulmanos e homossexuais que não querem renunciar à fé. Constantemente lembrados da punição de Sodoma e Gomorra, ‘A jihad for love’ mostra a busca angustiante de gays e lésbicas de uma forma para conciliar os dogmas da religião e a sua orientação sexual considerada maldita. Sujeitos a perseguições, humilhações e até à morte, muitos cedem a casamentos de conveniência e se deparam com a hipocrisia. Um jovem indiano conta como ouviu a condenação inflexível de um líder religioso para logo em seguida ser convidado a fazer amor com ele.

Filmado clandestinamente em doze países ao longo de seis anos, para a proteção de alguns e de seus familiares, o diretor usou recursos para esconder os rostos ou filmou apenas silhuetas, pois, existe o risco de morte tanto no Irã, quanto no Egito e Paquistão. Na África do Sul, Muhsin Hendricks, um ímã (líder religioso) casado e com filhos, declarou-se gay num programa de rádio e ouviu pedidos de pena de morte. No Egito, onde ser gay é ilegal, o jovem Mazen com 20 anos é obrigado a fugir depois de ser preso, torturado e violado por estar numa boate gay no momento em que esta foi invadida pela polícia. Maryam, uma lésbica que vive em Paris, e mantém uma relação de longa-distância com a sua namorada, Maha, no Cairo. Uma mãe muçulmana na Turquia aceita o casamento lésbico de sua filha mais velha. Quatro gays iranianos fogem de seu país e buscam asilo no Canadá. Para muitos a saída tem sido a fuga e são encontrados refugiados na França, na Turquia e no Canadá.

‘A jihad for love’ tem sido também conhecido sob a designação ‘Em nome de Deus’. A palavra ‘jihad’ ou ‘guerra santa’, diante das ameaças e atos violentos de extremistas muçulmanos, adquiriu conotação negativa. O seu significado é bastante complexo e o documentário tenta recuperar o conceito que se refere à luta dos indivíduos de se manterem no caminho de Deus.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

filme: milk

‘a liberdade é grande demais para ser enfiada pela soleira de uma porta fechada.’(harvey milk)


Quando adolescente Harvey Bernard Milk foi apelidado de ‘glimpy’ devido a suas grandes orelhas, nariz e pés. A história de Milk inspirou livros e filmes, em 1984 o excelente documentário ‘The Times de Harvey Milk’ dirigido por Rob Epstein recebeu um Oscar e depois foi transformado em uma ópera. A história de Milk será novamente contada no cinema no filme homônimo que tem direção de Gus Van Sant. O ator Sean Penn interpreta Harvey Milk. A produção está prevista para estrear nos Estados Unidos ainda em novembro.

O filme conta a história do primeiro político assumidamente gay e o terceiro dos Estados Unidos. Nova-iorquino de nascimento, depois de mudar-se para São Francisco, Harvey Milk se tornou um ativista dos direitos dos gays. Em 1977, Milk que era conservador até ao fim dos anos 1960, tornou-se liberal por causa da guerra no Vietnã. Foi eleito supervisor da prefeitura de São Francisco, e do prefeito George Moscone, mais especificamente para o distrito de Castro, bairro gay da época e onde ele morava e tinha sua loja de câmeras fotográficas, tomando assim o lugar de Dan White e tornando-se o primeiro gay eleito a um cargo público nos Estados Unidos. No ano seguinte, aos 48 anos, tanto ele quanto o prefeito foram assassinados a tiros pelo supervisor anterior.

Assassino confesso, o conservador Dan White foi sentenciado por homicídio ‘involuntário’, tendo cumprido cinco dos sete anos de prisão, três dos quais em regime aberto. A pena branda causou a revolta que levou a uma série de tumultos públicos que ficaram conhecidos na história do ativismo gay como os ‘White Night Riots’, resultando em dezenas de feridos graves, tanto do lado dos policiais quanto dos ativistas. Foram os distúrbios mais violentos depois dos de ‘Stonewall’ em 1969. A revolta também levou à abolição no Estado da Califórnia da legislação que levava em consideração em assassinatos o estado mental do assassino o que pôde diminuir a pena. Milk é tido como herói nas comunidades LGBT do país e mesmo internacionais.

Em maio na data de seu aniversário, um busto de Harvey foi colocado na Câmara Municipal de São Francisco (San Francisco City Hall), o primeiro memorial a ser colocado, de forma destacada em um edifício público, para uma pessoa abertamente gay. E após a aprovação do matrimônio entre homossexuais pela Suprema Corte, o Senado aprovou em agosto, o projeto de lei que torna o dia 22 de maio um feriado em homenagem a Harvey Milk. O projeto de lei deve agora retornar a Assembléia do Estado antes de ser apreciado pelo Governador Arnold Schwarzenegger. Se passar pelo ‘exterminador’, o feriado intitulado ‘Harvey Milk Day’, será celebrado no mesmo dia do aniversário do político e a Califórnia será o primeiro estado há designar um dia em memória a um ativista GLBT. O estado da Califórnia segue empunhando a bandeira do arco-íris.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

filme: before night falls

título no Brasil: 'antes do anoitecer'
gênero: drama
origem: EUA
ano de lançamento: 2000
direção: julian schnabel
roteiro: lázaro gómez carriles, cunningham o'keefe e julian schnabel, baseado em livro de reinaldo arenas
elenco: javier bardem, olivier martinez, andrea di stefano, johnny depp, sean penn, hector babenco

O poeta e exilado cubano Reinaldo Arenas ganhou seu próprio filme em ‘Before Night Falls’, adaptado do seu livro autobiográfico, pelo artista plástico e cineasta americano Julian Schnabel que mostra a sua vida sofrida de poeta e de cubano na luta pela liberdade de expressão. De simpatizante a perseguido pelo regime de Fidel Castro, saiu da ilha em 1980 na histórica expulsão em massa promovida por Castro, que livrou-se de aproximadamente 200 mil gays, deficientes mentais e criminosos, despachados para os Estados Unidos e países vizinhos em barcos e jangadas. A histórica expulsão já havia sido enfocada no filme Scarface (1983), de Brian de Palma.

A revolução cubana colocou os artistas e homossexuais como proscritos. Reinaldo Arenas era um escritor homossexual. Assim como o irlandês Oscar Wilde na Inglaterra, Arenas também foi preso e conseguiu transformar seu sofrimento de presidiário em bela poesia.

‘Before Night Falls’ relata a sua infância de menino pobre morando na zona rural de Cuba, vivendo com uma tia que era informante da policia, passando para a adolescência durante a revolução cubana, a descoberta da homossexualidade, as perseguições, até seu exílio nos EUA, que o censurou de outra maneira, ignorando-o como poeta e escritor, e sua derradeira desilusão. Vítima da AIDS, em 1990, terminado o livro, no original ‘Antes que anochezca’, sozinho e sem dinheiro, aos 47 anos, suicidou-se com uma dose excessiva de álcool e drogas.

O diretor Julian Schnabel explora a natureza numa belíssima fotografia. Chuva, árvores e terra servem como palco para um mundo de fantasias onde um menino escreve poemas nos troncos das árvores. O filme que foi rodado em apenas dois meses no México, afinal Fidel Castro jamais permitiria que fosse filmado em seu país, é um retrato fiel dos acontecimentos históricos entre 1943 a 1990, mas é sobre a vida de Reinaldo Arenas e não um filme político.

O ponto forte no filme é o elenco. Além de Javier Barden, também atuam como participações especiais, Hector Babenco, os atores Sean Penn, irreconhecível como Cuco Sanchez, o peculiar camponês que encontra o adolescente Reinaldo indo juntar-se aos rebeldes e Johnny Depp fazendo dois papéis, sendo um deles um caricato travesti chamado Bon Bom, prisioneiro e contrabandista a quem Reinaldo confia seus manuscritos e do tenente Victor, o oficial que intercepta o ‘lixo contra-revolucionário’ do escritor.

A interpretação de Javier Bardem como Arenas, no entanto, é o centro de tudo numa atuação sintonizada com a alma do poeta. A trilha sonora é eclética e refinada, as cenas são embaladas por piano erudito, música popular cubana ou pelo pop cult de Laurie Anderson e Lou Reed.




terça-feira, 5 de agosto de 2008

a arte do beijo na arte

tanto nas telas dos cinemas como nas das TVs, o beijo adquiriu dimensões monumentais, funcionando como um mágico substituto da realidade, concebendo a mais refinada forma de sublimação erótica pelo intenso contato entre os lábios dos protagonistas, uma suprema conjunção de carne e espírito.


‘The Kiss’ (1896), filme com menos de um minuto de duração, é um pequeno ornamento arqueológico na história do erotismo cinematográfico: o corpulento John C. Rice une, pudicamente, seus lábios aos da matronal May Irwin, consubstanciando um breve beijo amadorístico, polido, autoconsciente e casual. Foi este o primeiro beijo registrado no celulóide. As audiências dos cinemas experimentaram então, pela primeira vez, a vastidão da excitação voyeurística que é parte integral da arte cinematográfica. A sugestão erótica impressa no toque de lábios passou a funcionar como um instrumento de sublimação sensual, uma metáfora do sexo em sua totalidade pelo encontro epidérmico que antecedia, invariavelmente, a conjunção sexual plena.


Foi a escandinava Greta Garbo quem rompeu a pantomima coreográfica dos primeiros beijos cinematográficos. Na década de 1920, ela deitou seus lábios sobre os lábios de John Gilbert em ‘Flesh and the Devil’ (‘A Carne e o Diabo’ - 1926) de Clarence Brown, materializando o primeiro beijo de boca aberta e na horizontal. A ambigüidade de gênero também foi uma marca dos beijos de Garbo: em ‘Queen Christina’ (‘Rainha Cristina’ - 1933) de Rouben Mamoulian e ‘The Painted Veil’ (‘O Véu Pintado’ - 1934) de Richard Boleslawski, os beijos da diva sueca foram também dedicados às atrizes Elizabeth Young e Cecilia Parker respectivamente.


O beijo homoerótico já era então conhecido pelas platéias. Charles “Buddy” Rogers e Richard Allen protagonizaram o primeiro beijo homossexual das telas no drama de guerra ‘Wings’ (‘Asas’ – 1927) de William A. Wellman, embora as conotações eróticas do gesto permaneceram ocultas sob o manto da amizade. Foi somente com ‘Sunday, Bloody Sunday’ (‘Domingo Maldito’ – 1971) de John Schlesinger, que o homoerotismo encontrou livre expressão no intenso beijo entre Murray Head e Peter Finch. Os beijos trocados pelo britânico Daniel Day-Lewis e pelo paquistanês Gordon Warnecke em ‘My Beautiful Laundrette’ (‘Minha Adorável Lavanderia’ -1985) de Stephen Frears, por sua vez, adicionam ao homoerotismo o elemento da inter-racialidade.


Os beijos lésbicos igualmente floresceram cedo nas telas. A atriz germânica Marlene Dietrich, envergando fraque e cartola masculinos, foi quem, pela primeira vez, beijou ostensivamente uma mulher diante das câmeras em ‘Morocco’ (‘Marrocos’ – 1930) de Josef von Sternber. Sua ousadia seria muitas vezes repetida com grande êxito por inúmeras atrizes como Catherine Deneuve e Susan Sarandon em ‘The Hunger’ (‘Fome de Viver’ – 1983) de Tony Scott e Hilary Swank e Chloë Sevigny em ‘Boys Don’t Cry’ (‘Meninos Não Choram’ – 1999), entre tantas. O beijo marcado pela intensidade do desejo reprimido aconteceu em ‘Casablanca’ (1942) de Michael Curtiz, entre Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

(texto de hugo nogueira)

para celebrar o beijo lésbico em toda a sua gloriosa variedade

'come 'ere baby, you know you drive me up the wall…'

sexta-feira, 25 de julho de 2008

filme: ma vie en rose

título no Brasil: 'minha vida em cor-de-rosa'
gênero: drama
origem: bélgica/frança/inglaterra
ano de lançamento: 1997
direção: alain berliner
elenco: michele laroque, georges du fresne e jean-philippe ecoffey
premiação: recebeu o 'Golden Globe' de melhor filme estrangeiro e o 'GLAAD Media Award' de melhor filme do ano

‘Ma vie en rose’ é um dos mais belos filmes já produzidos sobre a sexualidade infantil. O uso de uma criança como protagonista levanta a questão da homossexualidade, neste caso, transexualidade, como condição inata, retirando a conotação de perversão e mostrando que não se trata de uma opção, uma escolha consciente, mas sim uma característica da pessoa, independente da sua vontade. O roteiro mostra com muita ternura a infância e adolescência de um transexual apaixonado por seu vizinho. O menino que interpreta Ludovic (Georges Du Fresne) é de uma doçura ímpar que dá leveza ao filme sem lhe tirar a seriedade, que em sua delicadeza deixa mais evidente o absurdo do preconceito.

A estória passa-se na Bélgica, num bairro típico de classe média, onde chega a família Fabre. A peculiaridade dessa família é que seu filho mais novo, o pequeno Ludovic, de sete anos, acha que vai se transformar em menina a qualquer momento. A intolerância da vizinhança faz com que ele sofra preconceito e a rejeição se estende a qualquer um que se aproxime dele e aos pais que não sabem como proceder diante do comportamento estranho do filho e da reação indignada dos vizinhos. O que lhe parece absolutamente normal é completamente bizarro para as pessoas que o cercam e Ludovic, refugia-se em um mundo cor-de-rosa onde cabem somente a boneca Pam e o apoio da sua avó.

É um belo filme e no tom certo que ensina o convívio com as diferenças sem cair no melodrama, mas não há como fugir de um sentimento de melancolia ao vermos um inocente e sem maldades sofrer preconceito e discriminação apenas por ser quem ele é. Um filme para aqueles com um mínimo de sensibilidade repensarem alguns dos seus preconceitos.


sábado, 19 de julho de 2008

brokeback mountain no teatro

a ‘Ópera de Nova York’ deu a missão ao maestro Charles Wuorinen para compor uma ópera baseada em ‘Brokeback Mountain’, o conto da escritora Annie Proulx sobre dois caubóis que se apaixonam. Depois do filme de Ang Lee, ganhador do Oscar de 2005, a nova obra promete mais polêmica e também muitos aplausos.

Edna Annie Proulx é uma escritora e jornalista norte-americana, de origem franco-canadense, nascida em Connecticut. Edna começou tardiamente a escrever ficção, aos 56 anos. Em 1999, resultante de um longo período de viagens pela Europa, Nova Zelândia e Austrália, lança a coletânea 'Close Range'. Dentre as histórias contidas nesse livro estava 'Brokeback Mountain', inicialmente lançado na conceituada revista ‘The New Yorker’, em 1997.

Críticos de seu trabalho acusam-na de expôr seus infelizes personagens a traumas intensos e a uma realidade negra demais. No caso de ‘Brokeback Mountain’, contudo, foi a realidade, que se encarregou de tornar a literatura ficcional de Annie Proulx um consistente presságio. Meses depois da publicação do conto, um crime de ódio aconteceu perto de onde a escritora mora. Matthew Shepard, então com 21 anos, saiu de um bar gay com dois rapazes. Ele foi levado a um lugar ermo, amarrado a uma cerca, espancado, roubado e deixado à morte, que o alcançou após horas de agonia sob o frio da noite. Cada um dos acusados recebeu duas penas perpétuas consecutivas.

Em um verão de 1963, antes dos hippies, do ‘amor livre’, do LSD, do ecstasy e da Aids, é que se encontram os caubóis Jack Twist e Ennis del Mar. Eles sobem a montanha Brokeback para cuidar de um rebanho de ovelhas e juntar algum dinheiro. Ennis pretendia se casar com sua namorada, mas o amor surge, sem dizer seu próprio nome nem encontrar nenhum outro que lhe convenha, e se instala entre os dois caubóis pelos 20 anos seguintes.

No conto de Annie Proulx, os caubóis são feios e toscos, muito diversos dos personagens de Ang Lee. Jack Twist é baixo, dentuço, de cabelos enrolados e tinha 'pneus' na cintura que aumentaram com o passar dos anos. Ennis del Mar, por sua vez, é alto e magrelo, de rosto fino, nariz torto e as pernas arqueadas típicas de caubói. Com poderosos diálogos e frases certeiras Annie Proulx mostra em menos de 60 páginas o poder de corrosão do medo e do mundo sobre o amor, sentimento em geral tido como indestrutível e milagroso. Sua trama desperta ao mesmo tempo a ansiedade de saber até onde vai tanta intensidade e o medo de virar a próxima página e descobrir a resposta.

Anos mais tarde Larry McMurtry e Diana Ossana fazem uma adaptação dessa história para um roteiro de filme que é materializado pelo diretor Ang Lee. ‘Brokeback Mountain’ conseguiu um feito inusitado, tornou-se um filme e o mais elogiado do ano. Sem cair na mesmice, sem cenas tórridas de sexo, o filme revela o romance proibido de dois caubóis de forma sensível e sincera. Impedidos de demonstrar e assumir seus sentimentos, eles são obrigados a escondê-los devido a realidade da época que não admitia casos homossexuais, visto conforme o relato de Ennis Del Mar (Heath Leadger) que confessa o fato de seu próprio pai ter espancando um deles até a morte. O relacionamento deles é algo maior do que simples desejo sexual, eles seguem apaixonados por muitos anos, vendo-se esporadicamente e encontrando um no outro o amor genuíno.

Heath Leadger e Jake Gyllenhall estão impressionantes. O primeiro está no seu melhor papel, merecidamente indicado ao Oscar. Abusando do sotaque e do jeito característico dos caubóis americanos seu personagem encontra-se atormentado por sentir algo indesejado, e Jack Twist (Gyllenhall) é a sua maldição. Jake interpreta um papel mais fácil, que está disposto a aceitar e expressar seus sentimentos, querendo viver junto com Ennis, mesmo que corra risco de se tornar vítima da violência e do preconceito. Michelle Williams vive a angustiada esposa de Heath Leadger, tanto na vida real como na tela. Demonstra segurança e só no olhar transmite mil palavras, como exemplo, a cena em que ela descobre que o relacionamento dos dois é mais que uma amizade. Uma história difícil e que tinha tudo para dar errado, acabou recebendo oito indicações ao Oscar. Contando um caso de amor universal em que não tem como não se identificar, independente da orientação sexual, ‘Brokeback Mountain’ é imperdível.


Fale de sua aldeia e falará do mundo, dizia Tolstói.
Annie Proulx quis falar do amor em uma aldeia
e falou do amor no mundo: e eles eram dois caubóis.

site oficial do filme

sábado, 28 de junho de 2008

seriado: last friends

O que um jovem gay está comentando hoje no Japão? Com certeza, o final de 'Last Friends' na semana passada, na Fuji TV, a nossa TV 'Globo' de lá. No Japão, a denominação de novela é drama, 'dorama', como eles pronunciam. É semanal, dura três meses, onze capítulos, no máximo. A cada estação, estréia um novo drama.

'Last Friends' ou 'Rasuto Furenzu', como os japoneses falam, começou em abril, início da primavera por lá, e virou um assunto obrigatório na comunidade gay. Logo no começo, mostrou um beijo entre duas meninas, provocando muita polêmica, já que no Japão ainda é tabu beijar ou mostrar emoções em público. Imagina com pessoas do mesmo sexo. As novelas japonesas, por exemplo, costumam mostrar beijos héteros bem discretos, selinhos, e só no último capítulo. Mas, acertou em cheio o coração dos admiradores do gênero. Logo na abertura, 'Last Friends' faz uma referência ao cultuado 'Dolls' (2002), filme-chave do cineasta Takeshi Kitano: um fio vermelho que une os personagens, representando a união de uma pessoa com sua alma-gêmea, independentemente de sua orientação sexual.

A música de abertura ('Prisoner of Love') é interpretada por Utada Hikaru, uma das cantoras jovens mais populares do Japão, e embala o drama de Michiru, garota que sai da casa da mãe e vai morar com o namorado ciumento e controlador. Ela começa a sofrer violência doméstica, enquanto se envolve com Ruka, uma amiga de infância, de visual masculinizado, corredora de motocross, com trauma que a impede de se envolver com homens.

Durante as 11 semanas de exibição, criou-se no país uma divisão de torcidas. Os conservadores não queriam que Ruka se assumisse e ficasse com Takeru, enquanto a comunidade gay torcia pelo final feliz. A atriz Juri Ueno, que interpretou Ruka, arrasou no papel, que lhe exigiu cabelos curtos, e inspirou meninas, lésbicas ou não, a entender melhor os diversos caminhos de sua sexualidade. É realmente invejável ver a TV japonesa superando preconceitos seculares abordando temas que, em países como o Brasil, ainda esbarram na caretice e no medo da rejeição de telespectadores e anunciantes.

(por Sérgio Ripardo)
Editor de Ilustrada da Folha Online


'Last Friends'



o beijo